por Mariana Lacerda, terapeuta ocupacional

 

Foto: Patrícia de Sá

No último post, falei sobre os sentidos {leia aqui}, aqueles sete que dão tom à nossa vida aqui na terra. Aqueles que sem eles, nos desorganizamos, nos sentimos perdidos e fora de órbita. Os sentidos, como vocês já sabem, vão sendo construídos desde a barriga da nossa mãe e durante a nossa primeira infância. E é por isso que eles precisam receber “incentivo” para se desenvolver bem.

Hoje eu quero falar um pouco mais sobre o sentido proprioceptivo. Esse sentido que poucas pessoas, até o último post, conheciam. Esse sentido, que de tão precioso que é, nos coloca a favor do nosso próprio corpo. Nos coloca conscientes de como ele ocupa o espaço aonde estamos. A quem este corpo pertence? Ou melhor, quem é este corpo? Quais histórias e movimentos vêm sendo construídos por ele desde sempre? Ele é que nos dá a possibilidade de regular nossos movimentos, dar qualidade às nossas sensações e percepções corporais. E como é que nós podemos desenvolvê-lo cada vez melhor para que possamos tomar posse desse corpo por completo? Brincando, experimentando, conhecendo esse corpo.

Na minha prática profissional, tenho encontrado crianças que pouco conhecem o seu corpo e sabem como ele se encontra nos espaços, e porque pouco conhecem esse corpo, passam a ter dificuldades com ele. Dificuldades de orientação espacial, de coordenação motora (fina e grossa), de equilíbrio e de sequenciamento motor, entre outros.

Foto: Patrícia de Sá

Mas se é justamente durante a infância que temos a oportunidade de ampliar esse sentido, porque será que isso vem acontecendo? Vejo crianças que não saem para brincar fora do apartamento, crianças que não ficam descalças sem meia, crianças que não podem pular ou levar um tombo, crianças que não podem subir em lugar algum, crianças que só podem correr num determinado limite, crianças que não podem pisar na grama, na lama ou no concreto. Crianças que só podem sentar na cadeira ou ficar em filas. Crianças que não podem experimentar o próprio corpo.

Estou falando de experimentar o corpo em tônus muscular, ajuste postural, equilíbrio, sentido profundo, a superfície que nos dá contorno, percepção, conexão. Estou falando de elementos que precisamos saber: quanto precisamos colocar de intensidade para nos movimentar ou falar? Como iremos dosar, regular e afinar a nossa própria percepção? É através dessa exploração corporal, que se faz a interação do corpo em si e do espaço externo.

Eu convido os adultos a deixarem as crianças passarem pela experiência de conhecer o próprio corpo, elas dependem de nós para isso.

Que tal?