Por Pollyana Xavier, psicanalista e estudiosa do brincar

Foto: Julia Baeta

O olhar sobre a infância e o brincar se alterou muitas vezes ao longo da História, mudando o lugar e o papel da criança na sociedade.

Hoje a criança tem lugar e tratamento paradoxal, sendo alvo de leis e políticas de proteção, ao passo que é ignorada como sujeito social, capaz de fazer escolhas e tomar decisões. Na maior parte das abordagens e olhares sobre a infância, a criança tem lugar de objeto: de cuidado, de estudo, de proteção. Raros são os espaços em que a criança pode dizer sobre si mesma, suas necessidades, anseios, desejos, impressões.

Ser sujeito significa ter voz, ser considerado e ouvido numa tomada de decisão, ainda que feita por outro. Ser sujeito não significa escolher e determinar tudo; ser completamente independente e autônomo.

É possível (e fundamental) fomentar a autonomia, a independência, a liberdade de escolha e a capacidade de tomar decisões por meio do brincar – fazer principal e mais essencial da infância. Mas autonomia é mais do que escovar os dentes sozinho, escolher a própria roupa e ter os brinquedos ao seu alcance.

Se uma criança brinca com um carrinho, que é uma réplica de um automóvel real, por exemplo, ela se diverte. Dependendo do modelo e das funções deste brinquedo, pode também desenvolver habilidades motoras, orientação espacial, noções de velocidade e distância.

Se uma criança pega um rolinho de papel higiênico e faz de carrinho, ela tem todos esses ganhos, além de decidir de quê e como quer brincar; criar e imaginar sua atividade, transformá-la em outra.

Foto: Julia Baeta

Quando não damos o brinquedo ou brincadeira prontos, possibilitamos que a criança se torne protagonista de seu fazer mais importante. Estamos assim, criando sujeitos mais capazes de construir saídas, inventar possibilidades. Sujeitos, portanto, mais criativos, resilientes, interessantes e, portanto, mais seguros e felizes.

Permitir o brincar com brinquedos não estruturados, objetos simples e de uso comum, é fator protetivo contra doenças mentais, dificuldades de comportamento e problemas nas relações interpessoais e de aprendizagem.

O brincar, grosso modo, é um treinamento para a cidadania, para a vida social. Ele pode ser um treinamento de ratos de laboratório, que repetem ações sem crítica; ou ele pode ser um treinamento de sujeitos versáteis, cujas ações são pensadas para o bem coletivo e o crescimento da sociedade como um todo.

Mais do que brincar, o que a criança precisa é brincar de forma plena, que amplie seu repertório e alimente sua mente em formação.

Foto: Julia Baeta