por Sandra Rodrigues, psicóloga

 

Foto: Ana Camargos

 


“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”
João Guimarães Rosa


Estive nesse site há pouco tempo apresentando a Comunicação Não-Violenta e falando do primeiro passo do seu processo (leia aqui). A Comunicação Não-violenta é uma comunicação do fundo do coração. É a comunicação que conecta sua humanidade com a humanidade do outro ser humano. Quem quiser se inteirar do que se trata, basta ler o texto anterior aqui.A CNV nos ensina a dialogar com outro ser humano por meio de quatro passos de uma caminhada: a observação sem julgamento, a identificação e expressão de nossos sentimentos, a compreensão das nossas necessidades e a realização do pedido. Escrevo agora dando andamento a apresentação
dessa caminhada: trago o segundo passo para nossa conversa: a identificação dos nossos sentimentos.

Os sentimentos são um universo imenso do ser humano, que exercem uma enorme influência sobre nossas ações, mas que são profundamente desconhecidos. O reconhecimento e a expressão consciente dos sentimentos, então, são elementos bem distantes da realidade da maioria das pessoas.

No capítulo em que Marshall trata desse assunto (Capítulo 5, Assumindo a responsabilidade por nossos sentimentos – Rosenberg, Marshall B. Comunicação Não-violenta. Editora Ágora), ele explica um pouco o porquê disso. Ele nos diz que não sabemos reconhecer e expressar nossos sentimentos porque não somos educados para tal. Expressar sentimentos quase sempre é visto como fraqueza, instabilidade ou exagero. O que dá status é a expressão mental, racional, lógica. Outro ponto destacado pelo autor é que somos melhores em rotular e julgar os outros que em identificar
o que sentimos. Nosso primeiro impulso, comumente, é o de julgamento, o que dificulta muito a comunicação. Ainda nesse capítulo é apresentada uma lista de sentimentos que experimentamos. Tente se perguntar mentalmente quais sentimentos você já experimentou. Quando faço essa pergunta em minhas oficinas, a lista passa de pouco mais de 10. Marshall sugere mais de 100 sentimentos… Pode
parecer muito, mas ao conhecer a lista, percebemos que, sim, já experimentamos a maior parte deles.

Quando comecei a estudar a CNV era um exercício agradável tentar me observar e encontrar na lista qual sentimento seria. Vamos percebendo que há diferenças entre os imensos sentimentos que temos e quanto mais clareza sobre eles, melhor saberemos lidar com sua expressão. E nesse exercício começamos a ver o quanto somos confusos em reconhecer o que sentimos. Marshall nos alerta para a importância de fazer algumas distinções. Destaco aqui a distinção entre sentimento e pensamento. Uma coisa é dizer “eu sinto medo”, outra coisa é dizer “eu sinto que meu filho vai se machucar nessa brincadeira”. Uma das sugestões para observação da nossa comunicação, apresentada por Marshall, é que quando falamos eu sinto, seguido de “que”, normalmente estamos expressando o que pensamos
e não o que sentimos. É como se estivéssemos falando “eu sinto”, mas significando “eu penso/eu acho”. Se ficarmos só no nível dos pensamentos, nossa comunicação ficará limitada.

Chegando aqui você já pode perceber o quanto a CNV é desafiante. O convite que ela nos faz é de entrarmos em lugares de nós mesmos que normalmente não visitamos. A CNV se aproxima da busca do autoconhecimento, é um caminho rumo à nossa autoconsciência e à compreensão do outro, ampliando nossa presença consciente nas relações interpessoais que estabelecemos.

E é nesse ponto que vejo uma ligação enorme entre a CNV e a maternidade/paternidade. Quando somos mães e pais e queremos exercer esse papel com toda intensidade e amor, somos colocados frente a frente conosco mesmos. Uma, duas, mil, milhares de vezes. Por dia! Há vários momentos em que não reconhecemos nossos sentimentos, ficamos confusos, ou extasiados, ou entusiasmados, ou estressados. Sentimentos de nossa infância há muito esquecidos, abafados ou enterrados começam a imergir.
Sentimentos nunca experimentados surgem. Estar atentos a nossos sentimentos e aos sentimentos do outro pode nos proporcionar contatos verdadeiramente autênticos. Isso exige conexão, atenção plena a nós e a quem está ao nosso redor. Muitas vezes é cansativo. Mas é imensamente gratificante.
E esse convite simples de entender e complexo de fazer, pois nos exige presença com o outro e conosco mesmos para identificação dos sentimentos é um convite ao crescimento humano de cada um de nós.