Foto: Patrícia de Sá

Recentemente, durante um evento do Na pracinha, eu, Flávia, tive um pequeno acesso de preocupação com uma blusa branca da filhota que, de repente, estava completamente suja de terra. Justo eu, que sempre incentivo as crianças a viverem o brincar livre, autossabotei todo o meu discurso, preocupada com as consequências práticas daquela brincadeira. Afinal, uma camiseta tão linda e nova não podia se sujar. Foi um rompante de poucos minutos, mas, refletindo sobre o episódio, percebi como nós, adultos, temos dificuldades em desapegar de algumas questões que são essenciais para a experimentação e o livre brincar: se sujar, testar os limites, fugir do convencional, mudar a rotina, bagunçar. Muitas vezes, podamos o potencial criativo da criança por não sabermos abrir mão do nosso jeito certinho de fazer as coisas. São muitas as razões que pais e cuidadores usam para argumentar com os pequenos e boicotar as brincadeiras. Quem nunca soltou uma dessas?

– Pintar dentro de casa? A tinta pode manchar os móveis!

– Fazer cabaninha hoje não, irá desorganizar a sala;

– Pegar a caixa de papelão do supermercado para criar um brinquedo? Larga isso, menino! É sujo!

– Não suba nessa árvore, você vai se machucar!

– Não corre, você vai cair, menina!

– Pra que tentar chegar no ponto mais alto do trepa-trepa? Brinque aqui no chão!

– Você quer colecionar gravetos? Isso é lixo…

Foto: Patrícia de

E se, ao invés desses posicionamentos, passarmos a incentivar mais o brincar?  Mas, o que é o brincar livre na vida dos pequenos? É quando a criança desenvolve a brincadeira sem direcionamentos, regras, estímulos intencionais de aprendizado. Permite-se que a criança explore suas criatividade, em seu próprio tempo e maneira, de acordo com a sua imaginação. E quando reproduzimos as frases acima, tudo isso deixa de existir. O resultado: estragamos a diversão! E se a gente se lembra que o brincar é coisa séria, percebemos que estamos deformando nossas crianças, tirando delas a espontaneidade e as oportunidades criativas com a nossa visão já limitada e definida das coisas. E, assim, impomos às crianças que elas devem estar sempre limpas, que brincar certo é de apenas uma forma e não podem usar o parquinho de outra forma, ou que não podem colorir fora dos limites e sempre com cores predefinidas. São muitos “não, não, não”.

Vamos nos colocar no lugar das crianças: não é tão legal pintar e usar até o corpo como tela? Ir para a pracinha vestindo a sua melhor fantasia para levar a história para outro lugar? E mudar a distribuição dos móveis da sala para brincar de escolinha? Experimentar comidinhas de verdade na brincadeira de casinha? Transformar o chão da sala em uma pista de corrida? Conversar com os animais, por que não? Imaginar que aquele inseto é um personagem da sua história, pode também! Deixe que ela crie os brinquedos com elementos desestruturados, ou seja, que ela dê novas funções a objetos do dia-a-dia.

E por que a gente não brinca junto também? Quem disse que o tempo de diversão com os filhos é “pagar mico”? Pular corda, elástico, pintar, desenhar, brincar de casinha, jogar bola: era tão bom durante a nossa infância! Muitas das nossas memórias afetivas de quando éramos crianças são permeadas pela presença do pai, da mãe, dos avós, de um tio ou primo super legal. Precisamos promover isto também para os nossos filhos.

Então, fica o convite: coloque-se no lugar da criança. Permita que ela experimente e se jogue na brincadeira. Segure aquele impulso de estar sempre no controle de tudo. Deixe os pequenos dirigirem a história, brinque junto! E deixe a blusa se sujar – não há limpeza mais importante do que ver uma criança feliz.

Inspire-se nesse montão de cliques que ilustram o post.

Foto: Julia Baêta

 

Foto: Julia Baêta

 

 

Foto: Viviane Lacerda

 

 

Foto: Patrícia de Sá

 

Foto: Patrícia de Sá

 

Foto: Patrícia de Sá

 

Foto: Patrícia de Sá

 

Foto: Patrícia de Sá

 

Foto: Patrícia de Sá
Foto: Luciane Guirlanda

 

Foto: Julia Baêta

 

Foto: Patrícia de Sá

Foto: Patrícia de Sá
“Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, 
mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, 
com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.” 
Carlos Drumond de Andrade