Recentemente, durante um evento do Na pracinha, eu, Flávia, tive um pequeno acesso de preocupação com uma blusa branca da filhota que, de repente, estava completamente suja de terra. Sempre incentivo as crianças a brincarem livremente, mas, naquela manhã, autossabotei todo o meu discurso preocupada com as consequências práticas daquela brincadeira. Afinal, uma camiseta tão linda e nova não podia se sujar. Foi um rompante de poucos minutos, refletindo sobre o episódio, percebi como nós, adultos, temos dificuldades em desapegar de algumas questões que são essenciais para a experimentação de nossas crianças: se sujar, testar os limites, arriscarem-se, fugir do convencional, mudar a rotina, bagunçar. Muitas vezes, podamos todo o potencial criativo e sensório da criança por não abrir mão do nosso jeito certinho de fazer as coisas. São muitas as razões que pais e cuidadores usam para argumentar com os pequenos e boicotar as brincadeiras:

“- Pintar dentro de casa? A tinta pode manchar os móveis!
– Fazer cabaninha hoje não, irá desorganizar a sala;
– Pegar a caixa de papelão do supermercado para criar um brinquedo? Larga isso, menino! É sujo!
– Não suba nessa árvore, você vai se machucar!
– Não corre, você vai cair, menina!
– Pra que tentar chegar no ponto mais alto do trepa-trepa? Brinque aqui no chão!
– Você quer colecionar gravetos? Isso é lixo…”

E se, ao invés desses posicionamentos, concedermos mais liberdade para experimentação?  Brincar livre é quando a criança desenvolve a brincadeira sem direcionamentos, regras, estímulos intencionais de aprendizado. Permite-se que a criança explore toda a sua potencialidade, sua criatividade, em seu próprio tempo e maneira, de acordo com a sua imaginação. E quando reproduzimos os comportamentos que cerceiam suas experimentações, tudo isso deixa de existir.

Para a criança, o brincar é coisa séria. Interrompendo a todo momento, tentando conduzir a vivência, tiramos a espontaneidade e as oportunidades criativas com a nossa visão limitada. E, assim, impomos às crianças que elas devem estar sempre limpas, que brincar certo é de apenas uma forma e não podem usar o parquinho de outra, ou que não podem colorir fora dos limites e sempre com cores predefinidas. São muitos “não, não, não”.

Experimente colocar-se no lugar da criança:  não é tão legal pintar e usar até o corpo como tela? Ir para a pracinha vestindo a sua melhor fantasia para levar a história para outro lugar? E mudar a distribuição dos móveis da sala para brincar de escolinha? Experimentar comidinhas de verdade na brincadeira de casinha? Transformar o chão da sala em uma pista de corrida? Conversar com os animais, por que não? Subir até o topo da árvore para ver o céu?

E por que a gente não brinca junto também? Pular corda, elástico, pintar, desenhar, brincar de casinha, jogar bola: era tão bom durante a nossa infância! Muitas das nossas memórias afetivas de quando éramos crianças são permeadas pela presença do pai, da mãe, dos avós, de um tio ou primo super legal. Precisamos promover isto também para os nossos filhos.

Então, fica o convite: Deixe os pequenos dirigirem a história, brinque junto! Permita que experimentem e se jogue na brincadeira. Segure aquele impulso de estar sempre no controle de tudo. E deixe a blusa se sujar – não há limpeza mais importante do que ver uma criança feliz.

“Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, 
mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, 
com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.” 
Carlos Drumond de Andrade