Foto: Fabiano Aguiar

Alfabetização… talvez um dos momentos mais marcantes de nossas vidas. Primeiro, quando crianças,
vivemos essa experiência totalmente nova de conhecer as letras, de criar as palavras e de adentrar esse mundo mágico da escrita e da literatura. Depois, como adultos, muitos passamos pela experiência como pais ou professores. Nesse caso, somos (quase) coadjuvantes no processo, e nos sentimos extremamente felizes e realizados quando vemos nossos pequenos lendo e escrevendo. Mas, nesse caminho, podem surgir algumas pedras e vivenciamos dúvidas e angústias diante das possíveis dificuldades de nossos filhos e alunos.

Independente do papel que estamos exercendo, há algo que nunca pode ser deixado de lado na aprendizagem da língua escrita: o afeto.

Sempre que penso nesse assunto, gosto de me lembrar de como foi para mim essa trajetória, lá no
final da década de 80, quando fiz o 3º período e a 1ª série.

Imagino que mesmo antes dessa data já eram trabalhadas algumas questões sobre alfabetização, mas
não recordo de terem tanta influência em minha aprendizagem (talvez por ser mais nova e não conseguir me lembrar de detalhes).A professora que tive no 3º período não era exatamente ruim, mas também não era tão carinhosa,
afetiva e próxima dos alunos, tinha uma certa rispidez que podia nos intimidar de alguma forma. Lembro-me das atividades de fazer a ficha (com a qual sofria, pois meu nome é grande e passava boa parte da minha manhã para completar a atividade), mas não me recordo de momentos agradáveis relacionados à leitura literária, por exemplo.Quando ingressei na 1ª série, uma nova oportunidade de me maravilhar com o mundo das letras
surgiu. A nova professora era extremamente carinhosa, cativante e próxima dos alunos. Todos nos sentíamos mais à vontade, até para errar. Nos momentos de Ditado, principalmente na correção do Ditado, a professora não nos amedrontava em relação à quantidade de erros que havíamos cometido, ela nos mostrava a importância de reescrever as palavras grafadas incorretamente, para que aprendêssemos a partir de nosso erro, e que pudéssemos memorizar a escrita certa.Com essa atitude muito mais paciente e condizente com o objetivo de ensinar, essa professora era
unanimidade entre os alunos, como a melhor professora. Não me lembro exatamente de como foi meu desenvolvimento em suas aulas, em relação às notas das provas, mas, hoje, ao fazer esta análise, vejo que a empatia que ela tinha por nós facilitava bastante a aprendizagem.

Como recompensa desse trabalho rico de interação positiva professor-aluno, consegui, naquele ano, ler meu primeiro livro. Li sozinha, do início ao fim. Até hoje recordo-me do título “Rente que nem pão quente”, da autora Maria Mazzeti. Depois desse, vários vieram. Essa professora foi decisiva na escolha da minha profissão, 10 anos depois, e na relação que tenho até hoje com a leitura. E isso não aconteceu à toa. A afetividade faz toda a diferença no estímulo da parte cognitiva e faz com que as crianças se sintam mais estimuladas a aprender. De acordo com estudiosos do desenvolvimento infantil, principalmente o francês Henri Wallon, a evolução afetiva está intrínsicamente ligada ao desenvolvimento cognitivo. É por meio da afetividade que a criança constrói suas emoções, torna-se segura, motivada e interessada na realização das tarefas, escolares ou não. Além disso, a afetividade promove o vínculo entre aluno e professor, elemento essencial quando pensamos em um processo de aprendizagem no qual ocorre a mediação do conhecimento por parte do professor.

Cabe a nós, pais e professores, tornar esse ambiente de aprendizagem um lugar de troca, de receptividade, de carinho, para que nossos pequenos passem por esses momentos de forma mais agradável, segura e com mais consciência da beleza e importância do que estão vivendo.