Nossas crianças nasceram em um mundo tecnológico e, infelizmente, têm perdido oportunidades de brincar de forma espontânea e criativa para seguirem instruções dos joguinhos virtuais e desenhos que povoam seu cotidiano. O tempo compartilhado com a família, que promove as mais doces memórias afetivas, é ocupado pelas telas, afinal, equivocadamente, os pais consideram um “sossego” poder contar com uma babá eletrônica para descansarem por alguns minutinhos.

Segundo dados do projeto Criança & Natureza, a média de consumo de Internet entre crianças de 2 a 11 anos no Brasil é de 17 horas por semana conectadas ao computador. Elas representam 14,1 % dos usuários domiciliares ativos. (IBOPE, 2012) As crianças brasileiras passam, em média, 5h35m em frente à TV. (IBOPE, 2014) Para 97% dos pais brasileiros, a brincadeira mais frequente de seus filhos entre 6 e 12 anos é assistir TV, vídeos e DVDs em casa. (Instituto Unilever, 2007)

É fundamental e urgente administrar a exposição dos pequenos com muita cautela. Inúmeros estudos alertam que a tecnologia influencia e muda os hábitos da infância, causando prejuízo e danos à saúde das crianças, como o déficit de natureza e problemas de socialização – leia mais sobre aqui e aqui.
 
“Os riscos mais conhecidos estão no excesso de uso e são de ordem cognitiva e psíquica: o afastamento da realidade, o desligamento do convívio e da interação, o entretenimento permanente e a incapacidade de lidar com o ócio, a perda da criatividade, redução da capacidade de concentração, a exposição à publicidade (com consequências dramáticas para crianças).” – Dr. Daniel Becker, pediatra
Na última semana de outubro, a Sociedade Americana de Pediatria alertou sobre a importância de se limitar o tempo passado na frente das telas e reiterou que menores de 2 anos não devem ter acesso a televisão e dispositivos móveis – leia aqui. Esta semana, a Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou um guia – faça o donwload aqui – com recomendações sobre o uso de tecnologia na rotina das crianças, direcionado a pais, profissionais de saúde e educadores.

Pontuamos as principais recomendações. Reflita a respeito e adote a melhor prática para sua família:• Desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas digitais, com exposição aos conteúdos inapropriados de filmes e vídeos, para crianças com menos de 2 anos, principalmente, durante as horas das refeições ou 1-2 h antes de dormir.

• Limitar o tempo de exposição às mídias ao máximo de 1 hora por dia para crianças entre 2 a 5 anos de idade. Crianças entre 0 a 10 anos não devem fazer uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos. Adolescentes não devem ficar isolados nos seus quartos ou ultrapassar suas horas saudáveis de sono às noites (8-9 horas/noite/fases de crescimento e desenvolvimento cerebral e mental). Estimular atividade física diária por uma hora.

• O tempo de uso diário ou a duração total/dia do uso de tecnologia digital seja limitado e proporcional às idades e às etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicos- social das crianças e adolescentes.

• Crianças menores de 6 anos precisam ser mais protegidas da violência virtual, pois não conseguem separar a fantasia da realidade. Jogos online com cenas de tiroteios com mortes ou desastres que ganham pontos de recompensa como tema principal não são apropriados em qualquer idade, pois banalizam a violência como sendo aceita para a resolução de conflitos, sem expor a dor ou sofrimento causado às vítimas, e contribui para o aumento da cultura de ódio e intolerância e devem ser proibidos.

• Estabelecer limites de horários e mediar o uso com a presença dos pais para ajudar na compreensão das imagens. Equilibrar as horas de jogos online com atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza.

• Conversar sobre as regras de uso da Internet, configurações para segurança e privacidade e sobre nunca compartilhar senhas, fotos ou informações pessoais ou se expor através da utilização da webcam com pessoas desconhecidas, nem postar fotos íntimas ou nudes, mesmo com ou para pessoas conhecidas em redes sociais.

• Monitorar os sites/programas/aplicativos/filmes/vídeos que crianças e adolescentes estão acessando/visitando/trocando mensagens, sobretudo em redes sociais. Manter os computadores e os dispositivos móveis em locais seguros, e ao alcance das responsabilidades dos pais (na sala) ou das escolas (durante o período de aulas).

• Usar antivírus, antispam, antimalware e softwares atualizados ou programas que servem de filtros de segurança e monitoramento para palavras ou categorias ou sites. Alguns restringem o tempo de uso de jogos online e o uso de aplicativos e redes sociais por faixa etária. Ainda assim, é importante explicar com calma e sem amedrontar as crianças e adolescentes quais são os motivos e perigos que existem na Internet, espaço vazio e virtual e onde nem tudo é o que parece ser!

• Aprender / Ensinar a bloquear mensagens ofensivas ou inapropriadas, redes de ódio, violência ou intolerância ou vídeos com conteúdos sexuais e como denunciar cyberbullying em helplines ou através da SAFERNET ou disque-denúncia tel. 100.

• Conversar sobre valores familiares e regras de proteção social para o uso saudável, crítico, construtivo e pró-social das tecnologias usando a ética de não postar qualquer mensagem de desrespeito, discriminação, intolerância ou ódio.

• Desconectar. Dialogar. Aproveitar oportunidades aos finais de semana e durante as férias para conviver com a família, com amigos e dividir momentos de prazer sem o uso da tecnologia, mas com afeto e alegria.

“Finalmente: saia de casa. Vá com as crianças ao teatro, ao cinema, ao museu, ao show, à roda de brincadeiras. E o supremo antídoto: desfrute da natureza – parques, praças, bosques, praias, cachoeiras, florestas. Tem (quase) sempre uma perto de você neste país abençoado. Ali não há wifi, e melhor ainda se não houver sinal de celular por um tempo. Em vez de sinal, você vai ter conversa, convívio, troca de olhares, afeto, cuidado, prazer, gelado, quentinho, abraço, beijo, brincadeira, jogos, gargalhadas, cantoria, histórias, balanço e gangorra, corrida e pulação, sujeira, bichos, fura-onda. E um tsunami de boas lembranças. São elas que ficarão namemória  afetiva de seus filhos e vão transformá-los em seres humanos melhores para si próprios e para a sociedade e o planeta onde vivem.”- Dr. Daniel Becker, pediatra

Lá fora é muito mais legal :)