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Entro na sala, turma de 7º ano, e anuncio toda animada: “Nesta etapa vamos ler O menino no espelho, de Fernando Sabino.” Em meio ao burburinho comum dos adolescentes, escuto os seguintes comentários: “O livro tem quantas páginas?”, “É muito grande?”, “A letra é pequena?”. Paro. Respiro. Respondo: “Não faço a mínima ideia de quantas páginas tem o livro.” E não estou mentindo, não sei mesmo quantas páginas tem O menino no espelho.     Quantos sentimentos diferentes vêm à minha mente naquele momento? Raiva, decepção, desânimo… por fim, compreensão. Coloquei-me no lugar daqueles alunos, de 12, 13 anos, que têm um universo de possibilidades de lazer, diversão, estão inseridos no mundo tecnológico (aliás, já nasceram nele, nem conhecem o mundo de Fernando Sabino). Será que esses meninos tiveram a oportunidade de escutar histórias, de manusear um livro, de ler livros ainda na primeira infância? Será que foi apresentado a eles esse universo mágico da literatura, como eu tive o prazer de conhecer, antes da minha alfabetização? O que posso exigir desses meninos, quando o assunto é a leitura literária?

A leitura, assim como a maioria das atividades que realizamos no nosso dia a dia, é um hábito e, sendo assim, deve ser formado, construído. A formação de um hábito leva tempo, dias, meses ou até anos. Um adolescente que chega aos 12 anos e mal lê revistas em quadrinhos, provavelmente, não vivenciou a experiência com a leitura na infância. Pesquisas recentes mostram que os pais devem começar a ler livros para os filhos, quando eles estão ainda na barriga. Nessa fase, o bebê já é capaz de ouvir as vozes e perceber a emoção que é colocada na leitura, a mudança dos tons de voz em cada situação que a narrativa apresenta. Depois, a leitura deve continuar com uma boa frequência, para que o bebê perceba a entonação, a pronúncia das palavras, fatores que ajudarão no processo de aquisição da linguagem oral. A partir dos 6 meses, quando os bebês já começam a assentar, é o momento de os pais oferecerem os livros para os pequenos, para que eles possam manuseá-los, senti-los, seja com as mãos, com a boca… Nesse primeiro momento, a escolha dos livros não precisa seguir um rigor literário, podem oferecer para as crianças livros menores, leves, de tecido, plástico, de fácil manuseio.

A leitura que os pais fazem para os filhos deve ser parte da rotina da casa. Cada família, dentro de suas possibilidades e limitações, deve estipular uma frequência, seja diária, semanal, mas sempre deve haver o “Momento da Leitura”. Esse ato deve ser valorizado, apresentado para os filhos quase como uma cerimônia, para que as crianças assimilem o valor que a leitura tem na vida. Sugiro às famílias que esse ritual aconteça de forma desvinculada da “leitura para dormir”. Essa leitura, muito comum em nossas casas, pode gerar duas situações não muito positivas: a criança dorme e não ouve o final da história (perde a sequência narrativa); a criança fica tão curiosa com a narrativa, que não dorme. Não precisa deixar de ler a história na hora de dormir, mas podemos oferecer aos filhos outros momentos de contação de história.

À medida que vão crescendo, as crianças podem dividir com os pais a função de escolher os livros que serão lidos e podem contar, eles mesmos, do jeitinho deles, as histórias escolhidas. Quando entram na fase de alfabetização, é ainda mais gostoso, pois querem realmente ler o que está escrito no livro, preocupam-se em contar exatamente como está escrito.

Voltando aos meus alunos… depois da leitura de O menino no espelho, recebi vários comentários de como o livro era legal, como a vida de Fernando era diferente da deles, como ele se divertia. Espero que, ao proporcionar a esses meninos uma boa literatura, eu ainda consiga ajudá-los na formação desse hábito tão necessário para a vida.