Foto: Julia Baêta
Foto: Julia Baêta

Muita gente associa os livros de imagem às crianças pequenas, que ainda não se alfabetizaram. “Como não conhecem as letras é mais fácil para elas entenderem a história apenas pelas imagens.” ou “O livro de imagens é para ser trabalhado com a criança antes da alfabetização, aos maiores devemos oferecer somente livros que tragam palavras (texto verbal), pois só de imagem é muito simples para eles.” Essas são ideias que devem ser revistas por várias questões.

O livro de imagem proporciona ao seu leitor (crianças de qualquer idade, adolescentes e até adultos) a oportunidade de criar, ao seu modo, uma narrativa verbal para aquelas imagens. A partir das ilustrações, é possível que a criança passe por dois momentos distintos e maravilhosos. Em um primeiro momento, descreve o que vê nas imagens, faz uma leitura quase “literal” do que está vendo nas gravuras. A partir desse primeiro contato com os desenhos narrativos, a criança ativa seu imaginário, aumentando e incrementando essa história: tenta criar explicações para o porquê daquela cena, o que pode ter acontecido entre as imagens retratadas, o que pode ter acontecido na história que o ilustrado-autor “esqueceu” de nos contar.

Com essas intervenções no texto-imagem, o leitor vai construindo uma noção essencial para a compreensão de um texto, e muitas vezes difícil de ser alcançada: a noção de sequência narrativa. A ideia de que as ações ocorrem porque algo moveu a personagem a realizar aquilo e que aquele fato vai desencadear outros realizados pela própria personagem ou por outras personagens do livro, podem ser visualizadas pelos pequenos leitores por meio das imagens, para as quais ele vai desenvolvendo o enredo.

Ao trabalhar com crianças alfabetizadas, esses livros devem, então, ser deixados de lado? De modo algum. Uma das maiores dificuldades dos leitores e produtores de textos iniciantes é justamente essa organização das ideias, da lógica narrativa. No caso da produção de um texto escrito, essa organização deve acontecer na mente, antes de colocar o texto no papel. Quanto mais a criança teve a oportunidade de realizar esse exercício imaginativo somado à compreensão do fluxo narrativo, mais facilidade vai ter ao criar e escrever seu próprio texto.

Um erro que cometemos ao fazer a leitura de um livro de imagem para uma criança pequena é fazermos toda a parte verbal, inclusive as suposições e as deduções a respeito das ações e sentimentos das personagens. Ao mostrar um livro assim para os pequenos, devemos escutá-los, ver o que eles estão percebendo a partir das ilustrações e de que forma eles (re)criariam essa narrativa. Entregar um livro só de gravuras para uma criança e pedir que, após explorá-lo bastante, ela nos conte a história, é dar a ela a chance de descobrir e utilizar diferentes habilidades ligadas à linguagem. Entregar o mesmo livro a diferentes crianças e pedir que cada uma faça seu reconto é mais rico ainda. Poderemos perceber como as possibilidades de narrar um mesmo fato são inúmeras e como cada um experimenta de forma diferente a imaginação, a criatividade e as várias formas de linguagem.