Quando a minha primogênita, Sara, era bem pequena, fizemos uma viagem longa de carro, com sete horas de duração. Fiquei ansiosa previamente, sem saber como ela reagiria ficando tanto tempo na cadeirinha.

Tratei logo de providenciar um adaptador de tablet para o encosto do banco do carro, a fim de que ela pudesse se entreter com alguns desenhos enquanto alcançávamos nosso destino. “Todo mundo faz isso, certamente vai dar certo.”, pensei. E deu mesmo. Para o objetivo de deixá-la quietinha ao longo do trajeto, funcionou.

Mas eu não contava com algumas questões.

Pra começar, com a correria do preparo da viagem, só consegui gravar um único episódio no tablet. Lembro direitinho de todas as cenas, pois a pequena o assistiu muitas e muitas vezes. Backyardigans na Pizzaria. Decorei até as falas (!). 

Só que a questão, na realidade, era bem mais complexa – e eu só fui perceber isso tempos depois. Agindo desta forma, oferecendo o tablet como companheiro em todo o trajeto, acabei por tirar a oportunidade da minha filha apreciar uma tela muito mais bonita ao longo da viagem: a paisagem de nossas terras passando pela janela. 

“…por que as pessoas não consideram mais que vale a pena observar o mundo natural? A beira das rodovias pode não ser perfeita como um cartão postal. Mas, por um século, a primeira noção das crianças de como as cidades e a natureza se encaixam vinha do banco de trás. Essa era a paisagem que víamos quando crianças. Era o filme que passavam em nosso carro. Talvez um dia (nossos netos perguntem): -Vocês faziam o quê? -Pois é – vamos responder. -É verdade. A gente de fato olhava para fora pela janela do carro. Em nosso tédio útil, usávamos os dedos para desenhar figuras no vidro embaçado enquanto víamos postes passarem. Víamos pássaros nos fios elétricos e tratores nos campos. Ficávamos impressionados com animais mortos nas estradas e contávamos vacas, cavalos e placas de propaganda de creme de barbear. Olhávamos com reverência para o horizonte, enquanto as nuvens carregadas e a chuva se moviam conosco. Brincávamos com carrinhos de plástico contra o vidro e fingíamos que eles também estavam correndo na direção de algum destino desconhecido. Nós considerávamos o passado e sonhávamos com o futuro. Víamos tudo passar num piscar de olhos.” Richard Louv – A Última Criança na Natureza

Com uma tela como companheira na viagem, tirei também a oportunidade da pequena se entediar ao longo do trajeto, obrigando-me a interagir com ela, como deve ser. 

Às vezes, parece que temos a necessidade de oferecer algo para as crianças fazerem o tempo inteiro. E numa viagem tão longa, um filme ou animação é o caminho mais fácil sempre. Assim, conseguimos tirar aquele cochilo, conversar sobre outros assuntos de adultos ou até mesmo acessar nosso feed – uma tela de cá e outra de lá. Mas veja, quando é que temos uma chance de estar tanto tempo juntos das crianças? Já têm nos tirado o tempo em casa, com a correria do dia a dia. Já têm nos tirado o tempo com eles em função da sobrecarga de trabalho, que muitas vezes obriga mães e pais a trabalharem fora o dia todo. Nos finais de semana, os compromissos diversos nos obrigam a carregá-los para o supermercado, para a farmácia, num corre corre sem fim. E quando é que paramos para conversar, para perguntar sobre o seu dia a dia, para sentir seus anseios, entender suas dúvidas, se emocionar com suas alegrias?

Nessas férias, repetimos a mesma viagem. Mas desta vez, sem telas. Foram oito horas incluindo contemplação da natureza e jogos em família. E com um plus: um irmão menor pra participar de toda essa história também.

Tivemos alguns momentos de estresse, é verdade. Que foram contornados com muita conversa, música e brincadeiras. Observamos juntos a linda paisagem – e estava linda mesmo – as montanhas, o verde abundante em muitos momentos, os animais ao longo do caminho.

Acompanhamos também o rio: “filha, tem um rio aqui do lado, que só aparece de vez em quando, quando as montanhas “deixam”. “Olha, mãe, vi um pedacinho! Agora vi uma parte maior…!”

Em outro momento, passamos por uma casa de fazenda – “olha, ali deve ter uma fazenda, mãe. Estou vendo boizinhos, bezerros”. “- Como devem ser os donos dela, filha? Será que tiram leite, será que há crianças por lá?” E a conversa foi se estendendo.

Vale a pena viajar sem telas. Contudo, esse tempo pode ser estressante se não houver um planejamento prévio. Isso não significa um cronograma rígido a ser seguido. Mas você pode ter importantes cartas na manga que ajudam nos momentos em que as crianças parecem estar realmente cansadas. A viagem de carro é o começo da viagem de família. E dá pra ter um belo começo.

Algumas dicas que utilizamos e podem ser úteis pra sua família também:

  • Brincadeiras simples podem distrair as crianças. Vale tê-las anotadas num bloquinho ou salvas no celular para ajudar a lembrar nos momentos “difíceis”. Nesta viagem, brincamos de Com meus olhinhos e Isso me lembra. Mas você também pode brincar de:
  1. Ar, Terra e Mar
    A criança, inicialmente, escolhe uma das palavras: ar, terra ou mar. Por exemplo: ar. O adulto (ou quem estiver participando da brincadeira) fala o nome de um animal que vive no ar. Depois a criança fala e assim sucessivamente, até esgotarem-se as possibilidades. Não vale repetir o animal. Em seguida, passará para a “terra”, depois o “mar”.
  2. Elefante voa
    A criança fica de frente para o adulto. O adulto pergunta se determinados bichos voam. Se voarem, a criança deverá responder “voa” e fazer o gesto com os braços. Exemplos: galinha voa? Pato voa? Elefante voa?
  3. Continue a história
    Você começa uma história inventada. Por exemplo: “Era uma vez, uma menina que morava numa casa amarela. Um dia…” Em seguida, você pede para a criança continuar, inventando o que acontece na sequência. Vocês continuam a história revezando entre si.
  4. Com meus olhinhos
    Escolha um objeto no ambiente onde estiver com a criança e cite a cor dele: “Com meus olhinhos, estou vendo algo verde”. A criança explora o ambiente até encontrar o objeto mencionado.
  5. Isso me lembra
    Uma pessoa começa dizendo uma palavra qualquer. A criança deverá dizer outra palavra que tenha a ver com aquela. Por exemplo: tomate. A criança diz: horta. Depois a próxima pessoa: alface. O próximo: verde. O outro: grilo. E assim a brincadeira continua, até que alguém não consiga se lembrar de uma palavra relacionada com a outra. Em geral, a criatividade impera, a brincadeira rende um tempão e gera boas gargalhadas.
  6. Rima Rima
    Simples assim: você diz uma palavra e a criança diz outra na sequência, que rime com ela. A brincadeira continua até que alguém não consiga mais ter opções. Ex.: você diz céu, a criança diz chapéu, depois você diz mel e assim sucessivamente. Se houver mais pessoas, mais divertido fica.
  • Um lanchinho é bem-vindo. É importante buscar manter uma rotina de alimentação das crianças, mesmo nas férias. Mas vale quebrá-la um pouco para distrair os meninos quando necessário. Uma fruta, suco ou biscoito ao longo do caminho pode ajudar. E você pode eleger “A hora do lanchinho”. Em geral, ela vem acompanhada de um “êbaaa!”. E as crianças passam a curtir esses momentos em família.
  • As crianças, em geral, amam música. Leve junto uma playlist especial, que os pequenos curtam. Na nossa viagem, escutamos Coração Palpita e Música de Brinquedo (Pato Fu). Mas há outras músicas super legais que você pode escolher, como Pé de Sonho, Saltimbancos – veja uma lista super legal de músicas pra criança AQUI. Para isso, talvez tenha que abrir mão da sua estimada seleção musical para agradar os pequenos por alguns momentos. Mas essa troca também é um aprendizado, não é?
  • Não queira chegar em tempo recorde ao seu destino. As paradas são importantes para as crianças (e os adultos!) descansarem, para mudar um pouco de ambiente, renovando as energias para se voltar à estrada. Na nossa viagem, paramos de 3 em 3 horas. Fizemos lanches leves – veja ótimas dicas de lanches para a viagem AQUI.

Se você também tem dicas para uma viagem agradável sem telas com as crianças, compartilhe com a gente!