Foto: Patrícia de Sá
foto: Patrícia de Sá

Com o advento de diferentes tecnologias que possibilitam a circulação quase que instantânea de informações, uma das temáticas frequentemente presente em textos publicados, seja por especialistas, pais, educadores ou diferentes atores que lidam com a infância, é o brincar.

O brincar é, de fato, uma das mais espontâneas manifestações da criança, visto que o comportamento lúdico lhe é algo peculiar no processo de descobrimento de si mesma, do mundo, e na construção de suas diferentes habilidades (sociais, motoras, cognitivas, sensoriais, emocionais etc.).

Esse comportamento lúdico foi sendo observado pelo olhar do adulto a partir da própria consolidação da noção de infância, que por sinal é algo relativamente recente na história da humanidade.

O uso do brincar como recurso terapêutico, pedagógico, de entretenimento, também não é novidade e tem sua relevância.

Contudo, o que tem me surpreendido veementemente são publicações que tenho lido de profissionais que, respondendo a uma tendência atual, extrapolam para além dos ambientes escolares, espaços de tratamento, um “modo de brincar” cada vez mais “consumido” por pais e pessoas em geral que lidam com a infância.

Ao brincar têm sido cada vez mais atribuídas finalidades e pouco espaço se tem para a espontaneidade desse ato. Cursos para pais são vendidos por profissionais renomados e convidam a explorar ao máximo “as possibilidades” que uma brincadeira oferece para “maximizar” o desenvolvimento de crianças, cada vez em mais tenra idade.

Eu atendo crianças com transtornos mentais e problemas emocionais graves. Utilizo sim o brincar como um dos muitos recursos terapêuticos dos quais posso lançar mão. Contudo, quando um pai ou uma mãe de uma criança com um quadro fóbico, por exemplo, me pedem “dicas” de brincadeiras para “acabar com o medo do filho”, sou taxativa: “Pergunte ao seu filho qual brincadeira ele prefere! Ensine uma brincadeira que fez parte da sua infância!”. Pais são acima de tudo, pais! Sua relação com as crianças não tem que ser “terapêutica”! Às vezes, o que o seu filho quer e precisa, é de brincar, só brincar!

Num outro contexto, percebo o quanto o brincar tem sido distorcido pelos adultos através da lógica capitalista. Sim, a lógica de que para se fazer algo, qualquer coisa que seja, deve-se ter o objetivo de se ganhar algo. Brinquedos e brincadeiras têm sido “prescritos”, muitas vezes, para “distrair” as crianças enquanto os pais estão fazendo coisas “muito mais importantes” do que estar com elas. Não digo que estou o tempo todo com meu filho, ou que jamais ele brinca sozinho! Minhas ressalvas são em relação aos adultos que sem crítica alguma incorporam estratégias do tipo “ Faça 30 jogos para manter sua criança ocupada o dia todo”. E quando vejo quais são os brinquedos, as brincadeiras, fico assustada com o que está sendo ofertado: algo que aliena, segrega, exclui a criança de uma vivência de fato lúdica, afetiva, espontânea e criativa.

Nos eventos que participo como contadora de histórias e brincante, convido sempre os pais e os adultos presentes a brincarem com suas crianças. E cada vez mais percebo um certo “desajeito” para fazê-lo. Sabemos fazer quando há prescrição, indicação pedagógica, finalidade x ou y, porque o “manual de instruções” nos dá o passo a passo.

Agora, quando o que está em jogo é o contato direto com a criança e com seu universo, a partir da sua perspectiva e protagonismo, somos muito inábeis para lidar com as situações! Não sabemos mais brincar! Esquecemos-nos? Será?

Brincar também é coisa séria! Na sua mais genuína forma de manifestação! É um convite ao encontro sincero com a criança com a qual nos relacionamos. Um encontro no qual a gente brinca por brincar. Só isso.