Sempre tive certo cuidado e até receio da literatura com função “pedagógica”, de usar o livro infantil para “ensinar” algo ou para trabalhar algum tema. Na verdade, era um preciosismo de achar que a parte artística perderia espaço. Há alguns livros em que isso acontece mesmo, o autor fica tão preocupado em passar uma mensagem com a história, que o enredo acaba ficando bobinho, perde-se em qualidade literária. Por outro lado, temos que pensar que a literatura exerce também uma função social e que há momentos em que podemos usá-la para tratar de algum tema com os quais temos dificuldades de trabalhar, principalmente em relação às crianças. A morte, separação dos pais, adaptação na escola, perda dos dentes e, o motivo deste texto, a chegada de um irmão.

Desde que apresentamos para o Lucas a ideia de ter um irmão, ele sempre se mostrou bem animado, feliz com a possibilidade. Agora que a ideia se concretizou, que a barriga já está crescendo, ele ainda se mantém entusiasmado.

Nesses meus garimpos, já vi vários livros que tratam da chegada de mais um membro da família, assunto que realmente gera ansiedade em todos da casa. O adulto lida de uma forma mais racional e realista, pensa nos gastos, na distribuição dos quartos. Já a criança, muitas vezes, não consegue elaborar o que está sentindo, principalmente nos longos 9 meses de espera. Qual a ideia, então dos livros infantis com esse tema?

Lucas foi com o papai à Biblioteca Pública Infantojuvenil de Belo Horizonte e pedi que o pai olhasse se tinha algum livro sobre o tema. Trouxeram dois: Cheirinho de neném, da Patrícia Santana, e Mamãe botou um ovo, de Babette Cole. Lucas achou divertidíssimo o título do segundo, ficou super curioso. No entanto, ao darmos a primeira lida no livro, consideramos que as informações que o ele trazia estavam um pouco exageradas para nosso pequeno, de 2 anos e meio. Ele trata do aspecto da reprodução humana, com desenhos do corpo do homem e da mulher, que achamos desnecessárias para o momento.

Já o Cheirinho de neném, de uma forma muito leve, afetuosa e gostosa, apresenta a chegada do irmão como algo positivo, ao comparar o cheiro do neném aos cheiros deliciosos do universo infantil. A irmã fica encantada com o bebê, não quer sair de perto do seu berço. Ao ler para o Lucas, aproveitávamos para comparar com o que ele estava vivendo, como vai ser a chegada da Catarina, que cheirinho ela vai ter, pensamos até no cheirinho ruim do cocô.

Já tinha conhecido outro que achei muito fofo, Tem uma semente na barriga da mamãe, de Christiane Gribel. A menina vai imaginando como e porquê a barriga da mãe está crescendo e essas ideias vão ocupando sua cabeça, o que ajuda a esperar pelos 9 meses até ver a carinha do irmão. Com muita criatividade e leveza, o livro vai criando situações engraçadas e inusitadas que surgem na cabecinha da menina.

Ao apresentar para a criança esses livros temáticos, mostramos para ela que aquele momento que ela está vivendo, não acontece só com ela, que são situações normais da vida, que outras famílias, outras crianças também vivem. Essa identificação com a história do outro faz com que a criança consiga lidar melhor com seus sentimentos. Além de conseguir ver de forma mais concreta como será a realidade após aquele momento. No nosso caso, ao ver a irmã curtindo os cheirinhos do bebê que acabou de chegar, o Lucas pode ter uma noção (pelo menos inicial) do que virá junto com esse novo e amado membro da família.