Volta e meia somos abordados por pais um tanto aflitos às voltas com questões sobre a criação de seus filhos. Nos procuram pressupondo que, como pais, somos possíveis referências bacanas e já traçam hipóteses sobre o nosso filho que muitas vezes nos surpreendem: “Esse menino deve ser um artista, com os pais que tem!”, “ Ele deve ser super desenvolvido! Vocês devem cantar pra ele o dia todo! Ele já deve falar de tudo!”, “ Ah, mas ser filho de vocês é fácil,né?! Vocês são ótimos com crianças!”. E por aí seguem as mais variadas conjecturas.

Antes de mais nada, devo avisar que nunca foi tão difícil ser criança e adolescente como nos dias de hoje. Especialmente numa sociedade que não regula minimamente as propagandas. As crianças crescem bombardeadas por conteúdos midiáticos que se capilarizam de tal forma que, mesmo nos lares em que se faz a opção de não usar a TV, qualquer ida à padaria com seu filho se torna um banho de imersão em uma cultura de imagens, desenhos, cartoons, sempre associados a um produto que está estrategicamente colocado ao alcance dos olhinhos e mãozinhas dos pequenos. E assim se segue até idades mais adiantadas da infância e por fim, na adolescência, quando não possuir determinados objetos, não usar o cabelo de tal maneira, não ler os cinco volumes daquela série dos vampiros bonitinhos passa a colocar em xeque a identidade e o senso de pertencimento em um grupo.

Tenho o compromisso também de dizer que nunca foi tão difícil ser pais como nos dias de hoje. Somos o tempo todo vigiados e cobrados sobre o modo de criação dos filhos. Com o advento das redes sociais, as pessoas passaram a imprimir suas ideias como a representação intelectual da verdade. Em uma época de relativa liberdade de expressão (se comparada a tempos pretéritos), acredito que nunca vivemos em uma sociedade tão dogmática. Em meio a termos cada vez mais utilizados, como criação com apego, parto humanizado, empreendedorismo materno, brincar livre, disciplina positiva, amamentação por livre demanda, maternagem ativa, paternagem ativa, dentre muitos outros, podemos nos encontrar em um rio de possibilidades que nos conduzirá naturalmente ao mar de uma criação com mais leveza e fluidez. Ou podemos perder o rumo e nos afogarmos em um mar de culpas.

Voltando ao que me motivou a escrever este texto, sinto, sinceramente, uma dificuldade muito grande em dar “dicas” sobre modos de criação. E vou te contar o por quê. Tudo começou lá atrás, quando ainda na gestação do Francisco decidimos que o pré-natal e o parto dele seriam com o menor número possível de intervenções. Participamos de grupos muito bacanas, escolhemos a doula que nos acompanharia e a maternidade humanizada. E simplesmente nada saiu como o planejado: no local em que imaginamos encontrar humanização sofremos violência obstétrica do momento da admissão até a hora da alta. E com o nascimento do nosso pequeno, e participando de grupos temáticos nas redes sociais, e levando questões para esses grupos, o que senti, na maioria das vezes, foi uma inadequação colossal.

Quando coloquei dúvidas sobre o processo de amamentação ou pedi ajuda profissional para tal, falaram de relactação para mim com tanta naturalidade. E depois de tentar durante meses e fazer a escolha de não prosseguir, me lembro claramente do olhar de reprovação da enfermeira, dizendo sem verbalizar: “ fracassou”. E quando nos passeios nos parques eu tirava a mamadeira, algumas mães olhando com reprovação e outras, mais audaciosas diziam coisas como: “Nossa,que pena que você não amamenta.”- Sem conhecerem o real motivo das coisas, sem nos conhecerem! Que fique claro que não faço apologia ao aleitamento artificial – minha apologia é à delicadeza!

Os meses foram se passando e nós, como pais, construindo a relação dia a dia com nosso filho. E eu,mãe,terapeuta ocupacional, e o pai, que é músico, e que pelo nossos “saberes” hipoteticamente teríamos um filho autônomo e independente, falante e musical na mais tenra idade, nos deparamos com um conjunto de comportamentos e sinais de alerta que nos levaram a procurar ajuda. Mais uma vez a enxurrada de “verdades alheias”: “Nossa,mas ele ainda usa fralda!”, “Ele não come sozinho?”, “ Você não deve falar NÃO para ele”, “Se tivesse usado BLW ele comeria de tudo”, e por aí vai… Essas pessoas não nos perguntaram se ele tinha seletividade alimentar, como era a interação dele, NADA.

QUEM SOMOS NÓS? Nosso filho nos ensina muito sobre isso e destaco duas grandes lições. A primeira: não temos tanto controle das coisas quanto pensamos. A segunda: a nossa humanidade nos convoca a definir e redefinir, quantas vezes forem necessárias, os nossos modos de criação. No momento, somos pais que acreditam na presença, no afeto, no diálogo, no contato, no brincar livre, na arte, no sim e no não (e no talvez também!). Somos pais que no momento daquela “birra homérica” por vezes perdem a paciência e soltam um “Pelo amor de Deus, filho!” e imediatamente pedem desculpas: “ Você estava irritado e eu não consegui te acolher. Me irritei também. Perdão”. Somos pais que evitamos a super exposição da intimidade e do cotidiano do nosso filho. Somos, acima de tudo, aprendizes. Então, não temos respostas. Porém, temos um convite: vamos aprender juntos?