Se você é mãe, você deve se recordar com carinho daquelas dicas que recebeu de amigas e familiares. Não, não estou falando daquela chuva de palpites não solicitados que recebemos até de quem a gente nem conhece (quem dera cada palpite fosse convertido em fraldas: o estoque seria eterno! Rsrs). Eu falo daquela pessoa querida que conversa com você e lhe passa muita segurança, que fala com propriedade e sempre tem aquelas dicas porque-eu-nunca-pensei-nisso-antes!

Agora imagine só se você pedisse a esta amiga para lhe dizer palavras sobre sua filhinha que acaba de nascer e ela então lhe escreve uma linda e longa carta, com palavras encorajadoras, na medida certa que uma puérpera precisa. Não seria um lindo ato de amor e amizade? (Aliás, enviar uma carta nos dias de hoje já tem todo um charme, não? <3)

Como Educar Crianças Feministas surgiu assim: um papo de comadre. Uma despretensiosa carta escrita para a amiga parturiente. É que Chimamanda Ngozi Adichie é uma famosa escritora Nigeriana e conhecida pelo seu ativismo na causa feminista. E ao receber em seus braços uma menina, Ijeawele pediu à amiga Chimamanda que lhe ajudasse a entender como criar sua filha para a igualdade de gêneros.

Batizado no idioma da autora, o inglês, de Dear Ijeawele (tradução livre: Querida Ijeawele ~ referência direta à saudação da carta escrita) e com o subtítulo de Um Manifesto Feminista com 15 Sugestões, o livro é na verdade uma adaptação da correspondência original para o formato de uma breve publicação editorial. De fácil e envolvente linguagem, Adichie descreve cada uma de suas sugestões para promover a igualdade de gênero desde a mais tenra idade. Uma vez em minhas mãos, sorvi o manifesto todo em menos de uma hora, pois não conseguia parar de lê-lo. É impressionante a capacidade da autora em dialogar com nossos pensamentos e nos mostrar como precisamos olhar para as crianças do mundo como pessoas que merecem um mundo mais justo, mais respeitoso, mais acolhedor para as meninas, moças, mulheres. E para meninos também.

Se engana quem deva estar pensando que este é um daqueles textos que vai sugerir criar uma geração que andará por aí sem se depilar, seios à mostra e militando em praça pública. Aliás, Adichie foi muitíssimo bem-sucedida em explicar através da missiva o que é o feminismo: um movimento pela igualdade de gêneros, isto é, homens e mulheres sendo respeitados igualmente, como indivíduos. Com precisão cirúrgica nas críticas, mas muita ternura na argumentação e proposições, a autora explica o que há de sexismo em nossa vida cotidiana e por que não deveria a nova mamãe estimular a bebê Chizalum Adoara a reproduzir estas práticas.

Se você é mãe ou pai, este é um livro muito importante para você. Se você está grávida, este texto é igualmente importante. Mesmo se o seu bebê for um menininho. Se você for avô ou avó, tio ou tia, professor ou professora, enfim, se convive com uma criança, e até se não convive também, não deixe de dedicar algum tempo para estudar esta obra. É que embora a carta seja para uma mãe, ela dá sugestões que tem a ver com a vida de todos nós. A nossa geração já não é mais a do futuro, mas é a responsável por esta. Precisamos, pois, evoluir. Precisamos deixar de perpetuar as falhas das gerações anteriores. Convido a todos a ler e divulgar esta pequena grandiosa obra literária. Presenteie uma pessoa querida com um exemplar, e ajude as palavras de Chimamanda a circular por aí.

Ao resenhar este livro lembrei de uma ação de marketing no lançamento do livro. A pedido da própria autora frases icônicas de sua carta foram reproduzidas por mulheres em vários países em cartazes e posts nas manifestações pelo dia da mulher de 2017, juntamente com a hashtag #WeShouldAllBeFeminists (em português #SEJAMOStodosfeministas), que vem do título da fala de Adichie para o TEDx Euston em 2013 transformada em um livro homônimo em 2015.

Listarei a seguir tais frases para aguçar mais ainda sua curiosidade, além de plantar sementinhas de reflexão.

“Eu tenho valor. Eu tenho igualmente valor”.

“Seja uma pessoa completa. Seja boa com você mesma”.

“Pai é verbo tanto quanto mãe”.

“ ‘Porque você é menina nunca é razão para nada. Jamais”.

“Ensine-lhe a fazer perguntas”.

“Ensine-lhe o gosto pelos livros”.

“Ensine-a questionar a linguagem”.

“Ensine-a a defender o que é seu”.

“Ensine-lhe autonomia. Diga-lhe que é importante fazer por si mesma e se virar sozinha”.

“Ensine-lhe sobre a diferença. Torne a diferença algo comum”.

“Meça-a pela melhor versão de si mesma”.

“Nunca fale do casamento como uma realização”.

“Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes”.

“Incentive-a a praticar esportes”.

 

P.S.: Ao ouvir a palestra We Should All Be Feminists, lembre-se de selecionar a legenda para o idioma português nas configurações do visor do YouTube.