Foto: Patrícia de Sá

Era uma gostosa manhã de segunda, o sol de outono tomava conta da nossa varanda, e então decidimos brincar ali fora. Fiz uma lista rápida das coisas que eu achava que seriam úteis – papel, tinta, tesoura, cola, blocos de todo tipo – e, enquanto eu ia juntando isso tudo,  eles perguntaram se podiam levar personagens também, bonecos disso e daquilo, e eu disse sim, claro que sim. Tínhamos ali os brinquedos favoritos, um suquinho gostoso pra matar a sede, ar fresco, e tudo ia correndo muito bem até que o pequetito começou a arranhar. Resmungava daqui, resmungava dali, pegava uma coisa e outra, começou a bater forte nos brinquedos, a jogar com força no chão e, apesar do meu esforço pra dedicar minha atenção a ele, disse uma frase que, fosse verdade absoluta, seria das mais tristes pra uma criança dizer: “eu não quero brincar!” “Não quer brincar disso? Não quer brincar comigo?” “Não, eu não quero brincar de nada, com ninguém, em lugar nenhuuuum!” – e se entregou ao choro.

Me lembro de acompanhar a experiência de uma amiga de longa data que estreou como mãe na mesma época que eu. A gente ia, muitíssimo bem intencionadas, levar nossos pequenos pra brincar na praça, às vezes por nossa conta, às vezes em eventos preparados pra receber as crianças, mas era grande a diferença de reação entre os meninos. O meu, ainda que demorasse alguns minutos, coisa normal de adaptação, se soltava e curtia a brincadeira. O dela, quase sempre, chorava, fechava a cara, dizia “não e não” sem explicar mais, e ela se via obrigada a desistir da ideia, que era, ao menos em tese, tão boa e tão benéfica pro desenvolvimento dele. Ficava frustrada, claro, mas sabia que a brincadeira, assim como a alegria, o entusiasmo, a vontade, não é coisa que se possa obrigar.

Voltando à minha varanda e ao meu pequetito, depois de insistir naturalmente por um minuto ou dois, buscando novas alternativas, resolvi dar espaço. Deixei pra lá. Ele, então, depois de gastar o tempo que quis com as lágrimas, se afastou. Ficou no extremo oposto da varanda, olhando de longe o irmão que brincava de moldar papel, até que foi se aproximando, me rodeando, colocando as mãos no meu colo. Abri espaço, ele se recostou, foi soluçando de forma cada vez mais suave, secando o rosto, se acalmando visivelmente. Um tempo depois, me perguntou se podia brincar, eu sorri, ele pediu o lápis, o papel, e eu tomei o cuidado de ir entregando aos poucos. Aí, não sei bem porque, achou seu lugar – no tempo dele, do jeito que ele queria fazer…