Foto: Patrícia de Sá

“Mamãe, nosso quintal termina ali, tá vendo? Tem esse muro invisível, ó!”, me mostrou o menino com uma forte barrigada no ar, deixando claro o cenário que a mente dele tinha criado no parquinho de areia em que a gente brincava. “Aqui é nossa cozinha, ali o quintal, e no muro invisível tem a super passagem secreta, que nos leva pra outra dimensão”, ele continuou explicando, apontando pra árvore que brilhava sob o sol do outono. Passamos mais de uma hora naquela realidade, com ele nadando de braçada naquele mundo paralelo e eu buscando fôlego atrás, mergulhando fundo sempre que podia pra tentar dar a ele o que ele queria de mim. Por mais de uma hora, fui a irmã, o menino era o irmão, e o pequetito era nosso primo.

Tenho muitas vezes a sensação de que não acompanho essa viagem dele, e que não tenho chances de acompanhar. Enquanto brinco, quase sempre de boa vontade, preciso combater uma dúzia de pensamentos que me vem à cabeça, mil coisas prontas a me roubar do menino. Lista de supermercado, preciso retornar aquele telefonema, mandar o material que o fulano me pediu e nem acabei de escrever, separar o uniforme do dia, hoje tem futebol… Futuro que não garante nada, passado que já não serve muito. Às vezes, ele me pega pelo rosto, me puxa o queixo, me cobra foco, mas não exige muito. Se eu respondo encarnando o personagem que ele quer, sorri satisfeito, como se eu estivesse exatamente junto com ele, como se eu pudesse até ganhar um oscar.

Me lembro da minha viagem de menina, das histórias que eu criava com as bonecas – só bonecas, num modelo típico do fim da década de 1980. Lembro das emoções que elas sentiam, do quanto eu reinventava tudo o que me acontecia, o quanto eu inventava o que jamais ia acontecer. É ali que eu tento buscar o que preciso pra mergulhar mais fundo, pra romper o que quer que tenha nascido em mim, na idade adulta, que me impede de me entregar como ele se entrega. Enfio o telefone na bolsa, puxo bem o fecho pra ver se me lembro de não abrir, e sento na areia, ou melhor, sento no nosso quintal, enquanto ele me traz o café que fez no fogão flutuante.

Muitos minutos depois, o pequetito dos pés sujos reclama de fome, eu me permito olhar o relógio, passamos e muito da hora. Juntamos tudo correndo, vamos logo, temos que tomar banho, almoçar, escola… e o menino me diz enquanto tenta tirar a areia da calça de moletom: “hoje foi tão legal, né? A gente tinha uma casa nova, e você parecia minha irmã de verdade.”