Foto: Patrícia de Sá

Estávamos a família inteira brincando no clube, numa gostosa tarde de sábado, e a curtição naquela hora era no campinho de futebol. O pequetito se empenhava em não pisar na bola, e o menino fazia de tudo pra chutar no gol – e conseguia, muitas vezes. Aos poucos foram chegando outras crianças, meninos de cinco ou seis anos, e eles foram organizando, de forma natural, uma partida improvisada. O pequetito ia batendo bola comigo, meu marido virou juiz do jogo dos meninos “grandes”, e tudo ia bem, muito bem. Minutos depois, chegaram mais cinco ou seis meninos, esses maiores, oito ou nove anos talvez, e pediram pra entrar na brincadeira. Claro, nem cabia dizer que não…

E foi aí que o menino teve, sem que a gente tivesse planejado, uma daquelas boas e ricas oportunidades de crescer. Uma mãe que estava ali perto tentou me alertar, disse “não dá certo isso, eles dominam a bola e os pequenos acabam machucados, eu vou chamar o meu”, mas eu deixei rolar. Lembrei da conversa que eu e meu marido tínhamos tido, sobre o exercício interessante que é a brincadeira em equipe, o jogo, o esporte – ainda que nessa idade comece a aparecer de forma mais clara a delicada questão da competitividade -, e lembrei também do nosso medo de que o menino talvez não estivesse pronto. Está entre os mais velhos na escola, é o mais velho em casa, vai reclamar, vai chorar diante da dificuldade, vai se sentir sacaneado pela esperteza dos outros, eu pensei. “Ó, já machucou”, me disse a mesma mãe, apontando pro meu filho, que chorava ao lado do pai não sei exatamente porque. Acho que tomou uma bolada.

Resisti à tentação de encerrar a brincadeira, dei espaço, fiquei de olho no pequetito e apostei na riqueza daquela experiência pro menino (e no bom senso do meu marido, que estava vendo tudo de perto). E se os meninos maiores não derem vez pro meu filho? E se ele perder de 7 a 1 e quiser chorar o resto do dia? E se cair enquanto tenta correr atrás do prejuízo? E se ele, que começou a brincadeira, não conseguir se impor? É um risco… Vários riscos…

Mas o tempo passou rápido. Ele chutou, chorou, chutou de novo, esperneou uma vez ou outra, e encerrou o jogo suado, com algumas queixas na ponta da língua, mas satisfeito, falando igual papagaio. No caminho de casa foi me contando suas aventuras, falou do gol que ele fez, daquele outro que ele evitou que fizessem e das vezes que conseguiu pegar o bola do “menino de oito anos”. Foi enumerando as conquistas que ele reconhecia, e eu ia comemorando aquelas outras que ele, por enquanto, nem imagina…