Foto: Patrícia de Sá

 

Enquanto eu escrevo esse texto, eles estão brincando sozinhos no parquinho de areia. Na maior parte das vezes que a gente vem aqui, eu tiro o chinelo, sento no chão, faço castelos, respondo a uma centena de perguntas por hora. Ainda agora estava admirando um pai aqui perto, que dedica toda a sua atenção ao filho, um menino de bochechas fofas que ainda não deve ter completado dois anos. Já fiz isso incontáveis vezes, e quase sempre me sinto mal quando minha atenção e meus olhos se voltam pra outra coisa, quando me flagro com o celular na mão trocando mensagens necessárias ou desnecessárias. Mas hoje resolvi ficar de longe e só; o resto é com eles.

Essa experiência não tem tido resultados muito bons em casa, entre as paredes de um apartamento pequeno. Eles se desentendem, disputam brinquedos, disputam atenção, reclamam, e embora eu ache que preciso fazê-los passar por isso, que é importante que aprendam a se entender sem o meu intermédio, acabo intervindo toda hora, tentando baixar o volume da cena, evitar mais confusões, mais choro… Mas aqui, com ar fresco e espaço pra todo lado, me encorajei a tentar. Já fazem uns 30 minutos, já fizeram bolo, criaram estradas, jogaram uns brinquedos pro alto, reclamaram um do outro, mas estamos indo bem.

Eu quis fazer tudo certinho desde cedo, e aí me propus a dar toda a atenção sempre que possível. Ótimo. Mas acho preciosos esses momentos em que os vejo entretidos sem mim, quando ficam por uns bons minutos sem me chamar – preciosos pra mim e, especialmente, pra eles. Estou olhando daqui, eles estão correndo em volta de um brinquedo, o que talvez não seja a coisa mais segura deste planeta, mas estão conversando; o menino está ensinando pro pequetito como faz pra parar o carrossel, assim como ensinou agora há pouco como faz pra subir no escorregador pelo lado contrário. Uma riqueza que ganha ainda mais significado se ensinada por outra criança.

Ih, peraí!
“Maaaaãe!” O que que aconteceu? A cara toda suja de areia. Toda. Anda, cospe! Pega água. Bochecha. Cospe! “Jesus Cristo! Por que você fez isso com ele?” “Porque ele me chutou!” “Ah, meu Deus! A mamãe não pode deixar vocês nem um minuto?” Esfrega o rosto na minha blusa, limpa. Pronto. “Pode deixar a gente sim, mãe. Eu desculpo ele…”