Foto: Patrícia de Sá

Nossa vida está cheia de sons e cada rotina tem os seus. Pode ser o alarme que nos desperta, o chuveiro que tomamos banho, o fogo que aquece o nosso café, nossa criança nos chamando ao acordar, o trânsito que enfrentamos para nos deslocar etc. Quase sempre um dia corrido cheio de movimento e de sons, não é? Mas tem também os sons que não percebemos e que fazem parte de uma paisagem sonora – termo cunhado por R. Murray Schafer – é o nosso ambiente sonoro, o sempre presente conjunto de sons, agradáveis e desagradáveis, fortes e fracos, ouvidos ou ignorados, com os quais vivemos. Do zumbido das abelhas ao ruído da explosão, britadeiras, música de câmara, gritos, apitos de trem e barulho da chuva tem feito parte da nossa existência.

Então, som é tudo que soa, que vibra, que se movimenta, e são expressões da vida. Isso tudo faz parte da nossa rotina e nos acostumamos com os sons comuns a ela. No dia a dia, vamos tendo contato com os mesmos sons e acabamos impondo os limites da nossa escuta pela nossa cultura. As músicas que escutamos fazem parte dessa composição, se tornam comuns e parâmetros para definirmos o nosso repertório e gosto musical, o que justifica estranharmos músicas de outras culturas. Cada região tem sua relação com as maneiras de produção sonora e usam outras ferramentas para realização musical como gritos, ruídos, vozes graves e outros tipos de afinação, por exemplo: os microtons presentes na música indiana.

E o silêncio? Nós entendemos por silêncio a ausência de sons, mas na verdade, são os sons que nosso ouvido não percebe. Se nós temos contato com os mesmos sons e condicionamos nossa escuta ao mesmo conjunto de vibrações, passamos automaticamente a ignorar os demais sons que existem em nosso entorno. Estar atento para a diversidade sonora que possuímos no mundo não só nos abre para novas descobertas como também aumenta a nossa coleção sonora, que pode auxiliar no reconhecimento de outros elementos da nossa rotina e nos dão repertório para fazer música.

Por isso, musicalizar uma criança é também apresentar ferramentas de escuta, sons que estão alheios aos convencionados como arte. Assim como um bom escritor começa por uma boa leitura, um bom praticante da música começa por uma boa escuta. E você, já convidou sua criança para escutar o silêncio?