Foto: Julia Baêta

“Não sobe aí que você cai” , “se jogar vai quebrar” , “não corre para não tropeçar”, “assim vai machucar” e tantas outras frases tão comuns de serem escutadas e repetidas sem uma análise consciente para as crianças.  Será que elas realmente têm espaço e oportunidade para sentir as consequências do seus atos?

Lógico que não deixo Liz se expor em casos extremos: atravessar a rua sozinha, ficar em parapeitos de lugares altos sem proteção, objetos cortantes sendo manipulados enquanto ela anda ou corre por aí. Mas em situações não tão extremas assim, ela tem a oportunidade de lidar com a consequências de suas escolhas, e acredito que isso a faz mais consciente de seu corpo e de suas atitudes.

Quando estava começando a andar, Liz já queria correr. Pedia para ela ir devagar enquanto descia gargalhando a rua de casa e, invariavelmente, caía e ralava o joelho. Eu abaixava ao seu lado, perguntava se precisava de ajuda, se tinha se machucado. Quando ela queria, pegava-a no colo, abraçava e explicava: “ Você caiu e se machucou porque correu. Na descida, você ainda precisa ou ir mais devagar ou dar a mão para mamãe.”

Inseri vidro em sua vida com menos de um ano, quando ela já manipulava bem objetos de plástico e de metal. Expliquei que vidro era frágil, que quebrava se caísse e que ela tinha que ser gentil com o objeto, segurando-o com as duas mãos. Falei firme, de uma maneira clara, com  poucas palavras e orientando-a. Ela, que finalmente pôde manusear por si aqueles elementos que tanto queria, foi cuidadosa. Mas enquanto brincava, molhou a mão, o vidro caiu e quebrou. Afastei-a e expliquei novamente: “Vidro quebra quando cai. Agora a mamãe vai limpar pois pode cortar, e teremos que brincar com outra coisa.” E deixei-a assistindo enquanto eu limpava. Por alguns dias qualquer copo de vidro visto por ela era motivo de uma cara séria e uma exclamação:  “quebrou!”

A criança para aprender, erra. E para conseguir errar é essencial pararmos de intervir o tempo todo. É mais produtivo respirar fundo e preparar nosso pensamento para uma acolhida assertiva, do que um “eu te avisei” que não leva a lugar algum, nem a ensina nada sobre si própria. Precisamos deixá-la assumir as consequências de seus atos para que sua vida não vire uma série de avisos e de cuidados dos outros para com ela, sem que a criança pense a respeito destes. Necessitamos, com urgência, refletir sobre coragem, ousadia, criatividade quando a limitamos ou inserimos medo e orientações o tempo todo.

A meu ver, o trabalho árduo é muito maior em nós, cuidadores, do que na criança. A consciência das suas limitações e desenvolvimento infantil tem que andar de mãos dadas com nosso trabalho diário de empatia, paciência e respeito ao próximo – seja ele grande ou pequeno.