Foto: Patrícia de Sá

Os meninos brincavam juntos no parquinho do clube, até então só os dois, e tudo corria bem. Eu olhava de uma cadeira perto dali e vi quando chegou um pequeno grupo de três crianças, já entrosadas entre si, acompanhadas por uma moça que, descobri depois, era a mãe de duas delas. Eu sei que essa busca por um território – e a defesa dele – em espaços públicos gera uma certa tensão entre as crianças, mas, apostando nas orientações que já dei inúmeras vezes, decidi deixar rolar, apesar dos riscos que corria. Menos de cinco minutos depois, o menino veio se queixar comigo, trazendo o irmãozinho a tira-colo, dizendo que o novo colega o chamou de bobo. “Chamou assim, do nada?” “Foi.” “E você é bobo?” “Não.” “Então volta lá pra sua brincadeira, uai.” Ele foi.

Não passaram mais do que 10 minutos e eu vi um movimento brusco da mulher, uma cara muito fechada, e ela dizia pro filho mais velho dela, enquanto ia juntando as coisas deles: “se você estivesse brincando tranquilo e alguém dissesse isso pra você, eu não ia gostar. Que vergonha!” “Mãe, você sempre estraga o meu dia!”, disse pra ela o menino, andando contrariado pra fora da área do parquinho. Não sabia exatamente o que tinha se passado, mas eu já estive ali. Já fui a mãe da criança que provocou confusão, já fui aquela que sentiu vergonha ao se imaginar julgada pelos outros adultos presentes, aquela que quando tenta consertar as coisas ainda ouve desaforos, e me deu até vontade de ir lá colocar um pano quente, aceitar um pedido de desculpas que nem tinha sido feito, mas eu sabia que ela precisava ter (de novo) aquela conversa com o filho dela. E eles foram embora.

Eu soube então que o menino dela tinha repetido a frase e feito careta, desta vez pro pequetito, que até que reagiu bem: ficou na dele, seguiu balançando no pneu. Meu menino se sentiu ofendido em nome do irmão, e enquanto eu aproveitava pra dizer que era pra ele se lembrar disso e não implicar com outras crianças, voltei uns três anos no tempo, quando saí daquele mesmo lugar chateadíssima, me sentindo a pior das criaturas, porque ele tinha se desentendido com uma menina – ela reclamou que ele a empurrou, ele disse que não queria brincar com ela – e a mãe dela disse pro marido, apesar do pedido de desculpas que eu fiz questão de fazer: “melhor tirar ela de perto desse menino… muito agressivo”. Demorei alguns dias pra digerir aquilo, e embora tenha compreendido que o adjetivo foi uma infelicidade, me lembro como se fosse hoje.

Custei para conseguir dar, de novo, espaço para ele nesses locais públicos, sempre com medo de que, se eu tirasse o olho por um minuto, ele fizesse alguma coisa que não devia outra vez. E fez. E fará. E taí mais um motivo pra eu correr pro parquinho, pra pracinha. É lá, junto com gente de todo tipo, gente que a gente nem conhece direito, que temos mais chance de ir acertando esses ponteiros.