O contato da criança com a música vai além dos sons que essa arte proporciona. Cada canção, cada ambiente e a conexão afetiva com a companhia que desfruta esse momento com a criança a afeta de uma maneira diferente, e ela recebe vários estímulos nessa experiência: como o tato enquanto ela toca um instrumento, a  percepção dos volumes e timbres dos instrumentos musicais que uma música apreciada apresenta, além das letras e dos sons das palavras.

Assim como na introdução alimentar em que o contato com diferentes texturas e sabores irão influenciar no gosto alimentar por toda a vida, esse cuidado tem que existir para o ouvido também. Faz-se necessário que a criança tenha contato com diferentes timbres, ritmos, melodias e arranjos, desde sua vida intrauterina, já que os sons começam a serem percebidos pelo bebê desde o terceiro mês de gestação, e durante toda sua infância.

É importante darmos a criança ferramentas para seu gosto musical se desenvolver pelas suas próprias experiências sonoras, livrando assim as músicas apresentadas a ela de categorizações e preconceitos quanto a gêneros musicais, pois isso pode afetar a sua apreciação, que é um processo acumulativo e de descobertas de novos pontos de interesse.

Podemos pensar que sensibilidade e inteligência seriam duas coisas importantes para desenvolver o gosto musical, porém Murray Shafer – compositor, escritor e educador musical –  discorda substituindo por curiosidade e coragem para descobrir e desenvolver suas próprias preferências musicais. “Curiosidade para procurar o novo e o escondido, coragem para desenvolver seus próprios gostos sem considerar o que os outros possam pensar ou dizer. Ouvir música é uma experiência profundamente pessoal, e hoje, com a sociedade caminhando para o convencional e uniforme, é realmente corajoso descobrir que você é um indivíduo com mente e gostos individuais em arte.” Ouvir música cuidadosamente vai ajudar a criança a descobrir como ela é única.

Aqui em casa, na nossa rotina, aplicamos essa teoria. Tomamos o cuidado em dar a Liz à oportunidade de escutar diferentes tipos de música, inclusive aquelas que nem escutamos tanto e nem seria uma escolha óbvia para o momento de apreciação. Evidente que ela escuta música infantil também, mas restringir seu universo musical a somente esse tipo de gênero é tirar uma grande oportunidade de aprendizado, de prazer e autoconhecimento.