Foto: Patrícia de Sá

Mal o dia tinha começado, e o menino já me pedia pra ver um vídeo no tablet. “Não, filho, não”. “Um joguinho, então?” “Não, agora não!”. Ele fechou a cara, fingiu que ia chorar, e experimentou mais uma meia dúzia de perguntas com o mesmo significado, pra ver se eu vacilava na certeza, mas eu segurei a onda. Não. Ele dramatizou como pode, foi andando atrás de mim pela casa, usou frases de efeito, disse “a minha cabeça está vazia de ideias, mãe… como eu vou me divertir?” Eu expliquei então que a gente não precisa de ter sempre grandes ideias, que tudo bem estar com a cabeça vazia, “não tem problema, assim é bom que uma ideia novinha em folha pode surgir”. Ele resmungou de novo, disse que queria ficar sozinho, e disse isso usando um tom de voz que eu achei que só ouviria na adolescência. Fica sozinho então, pensei, mas fica sem o tablet.

Menos de meia hora depois ele voltou correndo pra sala, puxou a mesinha de plástico pro canto, colocou almofadas no chão e me pediu pra sentar ali. “Vem, mãe, senta aqui pra você ver o meu teatro! Eu tenho uma história nova pra contar!” E começou a narrar o caso do tiranossauro que andava numa nave especial e tinha uma garagem colorida e flutuante, toda feita com pecinhas de montar, de onde ele cuidava do planeta, etc, etc…Incluiu sonoplastia, fez a marcação cênica de cada personagem, reclamou quando o irmão interrompeu o espetáculo e sorriu no fim, enquanto agradecia a plateia. Hashtag manhã sem tablet.

No dia seguinte, foi a vez do pequetito engrossar o coro dos que querem tablet (aos dois anos de idade) no café da manhã, e eu precisei repetir toda aquela convicção. A argumentação dele é um pouco diferente – menos palavras, mais choro, mais gente deitada no chão -, e o desfecho deu mais trabalho, porque eu precisei pôr a mão na massa. Sugeri que a gente fosse colorir, ele topou meio desanimado, depois inclui desenhos de cola colorida, ele adorou, mas sempre que eu ameaçava levantar, “agora é a sua vez, filho”, ele resmungava e lembrava que queria ver vídeo. Aí eu voltava pra mesa, pensando no que eu vou fazer no dia em que eu não puder ficar ali sentada, porque… convenhamos… não é sempre que dá. Hashtag manhã sem tablet. E que venha a hashtag manhã com tablet – o que eu posso fazer? Quanto mais eu puder evitar, menos sofro quando achar que é hora de ceder. Hashtag um dia de cada vez.