Diferentemente da aquisição da língua oral, que acontece de forma natural, a aprendizagem da língua escrita é um produto sociocultural, sendo necessária uma instrução formal e sistemática, que é passada pela escola. O processo de alfabetização requer da criança o desenvolvimento de algumas habilidades como, por exemplo, relação letra-som, noção do princípio alfabético (entender como o alfabeto funciona), noção de rima e leitura e soletração de palavras desconhecidas.

Algumas crianças, nesse processo de construção, podem apresentar dificuldades em desenvolver algumas dessas habilidades. Para ajudar essa criança, pais e professores devem trabalhar juntos de modo a identificar o impedimento para que a criança consiga alcançar o objetivo final da alfabetização: tornar-se um leitor de textos e do mundo que a cerca.

No entanto, vivemos em um mundo tecnológico em que a escrita no papel tem sido substituída, cada vez mais, pela escrita nas teclas do computador ou do celular. De que modo isso pode ser um problema para esse processo do aluno?

Vamos considerar aqui o uso dos auto corretores, tanto no celular quanto no computador. Muitas pessoas têm a sensação (equivocada) de que o programa realmente corrige nossa escrita. Só que isso não é verdade. Esses programas trabalham com um banco de dados de palavras que foram inseridas em uma lista. Ao digitar uma palavra diferente das que estão na seleção que ele já reconhece, o programa assinala a palavra. É muito comum, por exemplo, sobrenomes diferentes serem marcados como palavras erradas.

Por outro lado, há algumas palavras que se diferenciam em significado e/ou em classes gramaticais apenas pela colocação de um acento. Por exemplo: médico (substantivo – profissão) e medico (verbo que expressa a ação de medicar). Se digitarmos qualquer uma dessas palavras, independente do contexto, o computador irá aceitá-las, uma vez que as duas estão no banco de dados.

Trouxe essa explicação mais técnica para chamar a atenção dos pais para uma situação que tenho visto acontecer de forma recorrente e que me preocupa bastante: utilizar celular e tablet para auxiliar na alfabetização, principalmente quando a criança apresenta dificuldades no processo. Devemos ter cuidado com tais recursos, para que eles não sejam mais um dificultador para a criança, especialmente nas questões relacionadas à ortografia. Os problemas relacionados à alfabetização devem ser trabalhados de forma específica por profissionais capacitados para orientar as famílias e os alunos, sejam os professores, ou mesmo um psicopedagogo.