Foto: Julia Baêta

O mundo, desde sempre, está sob constante mudança. A grande questão é que hoje ele muda mais rápido e com isso urge a necessidade de mudarmos para acompanhar o seu desenvolvimento. Defronte a essas mudanças, várias áreas tem buscado uma nova prática que seja adequada com o tempo e as pessoas de hoje, e na musicalização infantil não pode ser diferente. Muito das abordagens quanto ao ensino da música, são resquícios de algo pensado há séculos e de certa região, mas muita coisa mudou desde então, como o nosso olhar para a criança e principalmente para sua aprendizagem.

O conhecimento da música era passado de acordo com a experiência e prática do músico que havia se proposto a ensinar, sem pouco ou nenhum olhar pedagógico para esse processo. As instituições que se propunham a ensinar se apoiavam em abordagens mais duras e limitadas. Acreditava-se que era preciso algum tipo de dádiva ou habilidade inata para aprender e praticar música, e isso colocava o professor num lugar de saber, que podia ofuscar a carga que a criança trazia consigo para o processo de aprendizagem musical.

Já pratico a música profissionalmente há 20 anos, e há 7 estou no universo infantil. Foram devidas as minhas dificuldades de aprendizagem dentro desse sistema de ensino da música e da minha prática como educador, que busquei desenvolver um novo olhar sobre como colocar as crianças em contato com a música e proporcioná-las uma experiência de aprendizado. Venho desenvolvendo uma teoria para atentarmos para esse olhar, onde a musicalização infantil é calcada em 5 pilares. Independente do método que se escolha para trabalhar música com crianças, existe alguns pontos que são inerentes a elas no contato com a música.

O primeiro pilar é o movimento. É a matéria prima para a produção sonora e a principal maneira que a criança busca seu aprendizado. A criança aprende pelo brincar, por isso deixa-la solta para experimentar e produzir os sons é essencial no processo de musicalização.

O segundo pilar é o corpo. É a porta de entrada para o conhecimento e ferramenta de produção sonora da criança. Traz uma carga de experiências acumuladas desde o ventre da mãe e, carrega emoções e expectativas quanto à música e quanto à vida, por isso o corpo da criança deve ser levado em conta antes de qualquer proposta a ser passada.

O terceiro pilar é a intenção. É o que se pretende fazer e o que se espera que vá acontecer. Todos os padrões que conhecemos e usamos para fazer música podem ofuscar as possibilidades e ferramentas para essa produção sonora. Objetos inusitados, como colheres, copos, baldes, podem ser instrumentos musicais ricos, se dermos a eles a intenção musical.

O quarto pilar é as artes integradas. Existe uma intercessão entre as artes que podemos explorar na prática e auxiliar na aprendizagem delas. Independente da ramificação artística que estivermos dando ênfase, seja na música, no teatro, dança, o nosso corpo é a ferramenta que usamos para dar vozes a elementos comuns entre as artes, como um personagem a ser interpretado em uma canção. Assim uma arte pode apoiar o desenvolvimento e a compreensão da outra.

O quinto pilar é a cultura. É na cultura que nos reconhecemos e temos um senso de pertencimento, já que esse termo pode ser definido também como um conjunto de costumes, de artes, de hábitos, etc., de um grupo. Faz-se necessário ser levada em conta em qual cultura a criança está inserida para que ela tenha mais identificação com os elementos contidos no processo de musicalização. Isso facilita o aprendizado, pois ela estará musicalizando elementos comuns a sua vida, e também pode dar oportunidades para criança conhecer os vários elementos que estão contidos na sua cultura e dialogar com eles.

A pretensão dessa teoria não é um método de aprendizagem musical, mas sim um olhar sobre a musicalização infantil.  Independente do método usado, da abordagem escolhida, seja em uma sala de aula ou seja em casa, se faz importante atentar-se a esses pilares para que o processo de musicalização da criança não ignore a essência do seu fazer artístico. A criança, independente da sua idade, traz consigo muita carga e expectativa quanto à realização da música, por isso se faz importante trocarmos as instituições de ensino por espaços de aprendizagem, e assim aprendermos juntos com elas.