Temos agora duas bicicletas. São, aliás, as primeiras a entrar na nossa casa, e foi em torno delas o passeio do último domingo, porque “precisamos treinar” – era o que eles diziam a toda hora, antes de experimentar pra valer a aventura sobre rodas. Pode parecer coisa boba pra quem já passou por isso, mas estava na cara o tamanho da emoção do menino, quase seis anos de idade, que esperou pacientemente, por meses, até o dia de colocar as mãos na sua própria bicicleta, que quer andar igual a fulano e beltrano, que quer saber se pode levar pro sítio, se pode andar na praça, se quando for adolescente vai poder andar por aí sozinho…

Logo que chegamos no “lugar bom pra aprender”, eles disputavam nossa atenção e o prêmio de mais bem disposto a encarar o desafio, mas é duro se deparar com nossas limitações, e em dez minutos a cena era outra. O pequetito desistiu de fazer força, “me empurra, mãe”, dizia, apesar das coxas grossas e da disposição pra correr de um lado pro outro. O menino, depois de um esforço visível pra acreditar que não tinha medo da novidade, chorava por causa da instabilidade, porque queria saber o que fazer, “mas não sei mãe, não sei como faz pra não cair…”

Eu também não sei. Há uns 30 anos atrás, fiquei com medo de subir na bicicleta de um primo, não subi, não aprendi. Doida pra sair pedalando, disse pra quem cuidava de mim que eu não queria, e não me lembro o que me disseram de volta, mas eu não subi. Alguns anos depois a minha irmã mais nova ganhou a bicicleta dela (porque ela não tinha medo) e eu cheguei a experimentar. Lembro até hoje do lugar e do clima de fim de tarde. Andei uns metros sem cair, mas antes que pudesse comemorar tomei um tombo (bobo) e nunca mais tentei. Fiquei de fora dos programas da adolescência que incluíam bicicletas, dizia que não gostava pra esconder meu segredo: eu tive medo e não aprendi.

Sem saber exatamente como orientar o menino e já antevendo uma lenga-lenga de intermináveis resmungos, perguntei se ele estava disposto a cair. Cair? “Sim, porque você vai cair várias vezes. Vai machucar o joelho, vai resmungar, mas não tem outro jeito de aprender”. “Mas eu vou ser muito bom, mãe”. “Mas antes disso você vai cair. Você não nasceu sabendo equilibrar aí, então você vai cair. Tá? A outra opção é ficar aqui sentado comigo.” “Tá, eu caio então”, ele respondeu, estranhando o tom da minha conversa. Aí subiu de novo na bicicleta, esticou um pouco mais que antes, se salvou com destreza de dois ou três quase tombos, e lá pelas tantas caiu. Olho nos meus olhos, olhou pro chão, levantou e subiu de novo na bicicleta.