Foto: Julia Baêta

“Dizemos que corrigimos a criança para seu próprio bem, e na maior parte do tempo acreditamos mesmo nisso. Mas é estranho como frequentemente aquilo que percebemos como o bem da criança coincide com nosso próprio conforto.” Maria Montessori

Ultimamente tenho visto em ambientes comuns – praças, shoppings, restaurantes – um nível de inadequação tão grande de cuidadores com as suas crianças que me vi evitando aglomerados de famílias para não presenciar cenas de gritos, coerção com comida, fala ríspida e pouco gentil e ameaças de ir embora a todo momento.

Não sei em que ponto a liberdade e intimidade que temos com nossas crianças e o cansaço do dia a dia dá abertura para esse tipo de comportamento, mas penso que é a hora de sentarmos e refletirmos sobre como nosso comportamento influencia no delas e esse círculo vicioso só piora uma situação já bem complexa.

Culpamos o trabalho, o cansaço, a correria, a vida atribulada, tudo mais que engole nosso tempo e paciência, mas precisamos estar atentos ao fato que nós somos o adulto da relação. Precisamos pensar como nossa reação devido a uma frustação nossa – seja pelo suco derramado, seja pela sujeita feita ou qualquer outro motivo comum quando estamos com os pequenos – é o espelho para eles de como reagir a alguma frustação própria. Pedimos para não gritar enquanto gritamos. Pedimos para serem calmos e educados enquanto não somos com eles.

Criou-se essa expectativa cultural de crianças boazinhas – sentadas, comendo o que colocamos no prato, quietas e aguentando horas de programas de adultos – supermercado, farmácias, shoppings e restaurantes. Quando alguma alteração começa a surgir, ou até mesmo antes dela acontecer, logo saca-se os apetrechos tecnológicos para distração – ou as deixamos no espaço kids com muitos brinquedos e monitores.  Assim fica difícil nesse contexto que não se altera de alguma mudança genuína de comportamento, não?

Para mudarmos o meio, precisamos antes mudarmos nós mesmos, os adultos da relação. Precisamos olhar para nossas atitudes e nossas escolhas antes de apontar o dedo para essa nova geração que está chegando, e que, infelizmente, na maior parte das vezes, não tem o mínimo poder de escolha sobre onde está e o que está fazendo. Temos uma cultura de superioridade dos adultos em relação aos pequenos, que a voz deles normalmente não é levada em consideração em uma escolha de menu, passeios ou até mesmo horários de obrigações.

Precisamos ser um pouco mais sinceros conosco e olhar para nossas atitudes com as crianças, principalmente com as mais próximas que temos tanto amor. Precisamos expressar esse amor em forma de respeito e afeto – com olho no olho, tempo de qualidade e espaço na agenda para programas realmente infantis nessa rotina atribulada – parques, praças e espaços abertos em que as crianças possam estar gritando, correndo, sujando, jogando e sendo felizes.

Precisamos lembrar da idade dos pequenos e do tempo que eles realmente aguentam alguma situação antes de reprimi-los com adjetivos que não são verdadeiros, e que tocam profundamente o coração deles e a visão que eles têm sobre si mesmo.

E acima de tudo, precisamos lembrar quanto tempo verdadeiramente sentamos e brincamos com eles nesses últimos dias. Será mesmo que todos os outros compromissos são tão inadiáveis assim a ponto de perder essa fase em que somos tão amados e tão queridos por eles? Será que todo esse comportamento inadequado deles não é uma maneira de chamar a sua atenção pelo fato deles estarem ali?

Lembre-se da sua infância e de algum momento gostoso que teve com sua família – garanto que envolvia essa atenção e disponibilidade para com você pequeno que perpetua na sua lembrança até hoje. Que tal nos propormos hoje a construir uma memória inesquecível?