Em nossa casa somos 4 pessoas e um automóvel. Se essa proporção parece normal para os padrões da classe média da década de 1980, para o atual sabemos que fugimos à regra. É bem verdade que foram nosso estilo de vida e rotinas que definiram essa opção. Moramos próximo a todos os ambientes que precisamos nos deslocar: escola, trabalho, faculdade, casa dos avós; tudo bem pertinho. Na prática, quem está com as crianças fica com o carro e, se os caminhos não permitem casar agendas, o adulto sem carro busca outras opções. Ônibus, táxi, serviços de transporte via app, carona e eventualmente até o metrô nos servem muito bem – sim, somos privilegiados por morar em uma região bem alimentada, não podemos reclamar. Essa escolha atende bem nosso bolso (as continhas na ponta do lápis provam o quanto economizamos!), mas também vão ao encontro de nossa percepção de mundo – um carro a menos poluindo a cidade.
Acontece que, até bem recentemente, eu não havia ainda percebido que eu não estava ensinando para os meus filhos esse senso de pertencimento à cidade e responsabilidade para com o coletivo. A ficha caiu nas últimas férias, quando resolvi fazer um programa mãe e filha em um teatro aqui no bairro, a menos de 2 km de casa. Papai e irmãozinho nos levaram até lá. Quando saímos do espetáculo, ainda era dia claro. Cheguei a olhar para o ponto de táxi, vazio, e ao sacar o celular da bolsa para chamar um carro contemplei o abrigo do ponto de ônibus literalmente  na minha fuça. Raciocínio rápido e óbvio foi: “opa! estamos sem mochilas, só nós duas, sem bebê pequeno, e o ponto de desembarque é em nosso quarteirão. Ônibus será!”
Para nossa sorte a linha não demorou nem 5 minutos para passar, e com mais outros 5 já estávamos em nosso destino. Bia achou o passeio super divertido (a novidade faz até um ônibus ser passeio!) e eu economizei algum dinheiro também. Mas foi o que ouvi dela assim que descemos em nossa rua que me provocou reflexão:  “mãe, o ônibus parou no lugar errado!” Paro. Analiso. Me localizo. Tudo certo! Estamos no ponto correto, vejo meu edifício do outro lado da rua, no meio do quarteirão… “Uai, filha, está certo!” “Não está não, mamãe. Nossa casa é do lado de lá.” – E apontou para os 30 metros entre o ponto e a portaria de casa.
Perplexa, entendi o que nem minha filha compreendia naquele momento. Era um novo paradigma, um choque de realidade. Beatriz não entendia como funciona um ônibus, embora aquele não fosse exatamente nossa primeira viagem de coletivo. É claro que o ônibus estava no lugar errado, porque ela era o centro de tudo, e o motorista não parou para ela, no ambiente dela. Para ela, todos param na nossa porta: o carro da família, as caronas, os táxis e serviços de transporte via app. E o que eu via nesse momento? Para além de uma nova possibilidade de deslocamento, eu enxerguei ali que nossas escolhas mais elementares refletem na forma como meus filhos percebem o mundo à sua volta. A escolha por transportes individuais, embora cômoda e muito confortável, impede que eles compreendam que na verdade o mundo não é só para eles, mas para todos. Escolher sempre passear em carros particulares é uma forma de pensar apenas em si, o mundo girando em torno do nosso umbigo. Para que meus filhos entendam o que é o coletivo, o que é uma sociedade, preciso que eles vivam esta coletividade na prática.
A cena continua conosco caminhando de mãos dadas, conversando. Expliquei a ela que era assim que os ônibus funcionavam, mas ela não gostou muito de saber que precisava se deslocar. Foi assim que decidi que, para a festinha do próximo final de semana, iríamos de ônibus. No dia da festa, caminhamos 2 quarteirões pra chegar em um ponto, e depois mais 6 quarteirões para entrar na casa. Foi divertido, conversamos muito, brincamos juntas, curtimos muito nosso tempo juntas.  Foi também um exercício de paciência, pois ela também não entendeu muito bem por que era preciso esperar.  O aguardar é uma etapa importante de qualquer processo, e algo que a turminha digital da era touch não entende muito bem.
Devo confessar que depois desse dia andamos de ônibus apenas mais uma vez, e mais outra de metrô. A rotina, como falei, já está desenhada de forma que o carro é essencial. Mas a experiência do ônibus – e a reflexão que ela provocou em mim – me fizeram conversar mais vezes com a pequena de 5 anos sobre o funcionamento da cidade e de o que é ser cidadão. Pode parecer muito barulho por nada, mas eu tenho para mim que não há outra forma de criar cidadãos de bem, conscientes de seus deveres e direitos, se não ensinando-os a enxergar a diversidade e os detalhes de tudo que nos cerca. Treinar o olhar para que ele se desloque do eu para o outro é das tarefas mais difíceis e mais necessárias nos tempos atuais. Só assim construiremos uma sociedade mais empática e engajada. Fica aí, pois, meu convite às famílias amigas que experimentem passear de ônibus também. Bora criar cidadãos melhores para este mundão.