Dia desses fomos em família fazer uma das coisas que mais gostamos: conhecer um restaurante fora da cidade, em uma área rural. A gente gosta muito de dar essas pequenas fugidas na natureza, é como tomar um fôlego para suportar o ritmo da vida urbana.

Quando chegamos em nosso destino, nossos olhinhos vidrados mal se continham. Quanta vida! Árvores frondosas, cheiro de terra, barulho de cachoeira bem próxima. Entre o estacionamento e as mesas do refeitório caminhamos por uma vereda com cara de interior, com pequenas construções como as de um vilarejo. Em uma delas havia equipamentos de arvorismo, numa outra quitutes e artesanatos tipicamente mineiros.  Ao redor algumas galinhas e cães soltos, um cantinho com redes preguiçosas pra deitar, e a sinfonia de pardais e vários outros passarinhos.
Que dia mais especial nos esperava! Quanta riqueza de sons, de cheiros… Nossos corpos ativando seus sentidos com cada um dos estímulos que se apresentavam. Verde, vida, tantos potenciais! O laguinho que avistávamos próximo às mesas do restaurante estava cheio de peixes, girinos e patos. A Serra da Moeda emoldurava toda aquela beleza natural, e não sei se pelo verde em nossa volta ou se pela bela manhã de julho, o céu estava de anil sem igual.
Passamos nossa estada entretidos entre petiscos de comida mineira, frutas saborosas e exploração na natureza. Gravetos viraram varinhas mágicas, balançar na rede virou um balanço coletivo mais confortável… Até deitar no gramado para descobrir desenhos nas poucas nuvens nós deitamos. A cachoeira, de águas frias por ser inverno, era tão bela que não resistimos e mergulhamos nossos pés. Foi um passeio tão revigorante e agradável que mal vimos as horas passarem.
Houve uma passagem nesse dia, porém, que me despertou muita atenção. Uma família como a nossa, com filhos na mesma faixa etária, chegou procurando saber quais eram os atrativos do local. O garçom, talvez por não ter compreendido muito bem a pergunta, disse que além do restaurante havia o arvorismo, para quem medisse mais de 1,20 metro. Enquanto os filhos daquele casal se deleitavam contemplando o lago e seus animais, seus pais andaram de um lado para o outro e decidiram: ‘vamos embora, aqui não tem espaço kids!’ Foi com olhar desconcertante que vi as duas crianças marcharem para o estacionamento desolados, relutantes por não concordarem com seus pais.
Eu bem sei que as pessoas têm perfis diferentes, e que para muitos a vida urbana faz muito mais sentido. Mas quando foi que perdemos nossa sensibilidade para com as maravilhas da criação? Por que será que um espaço kids, com alguns brinquedos de plástico de pouquíssimo potencial criativo, é mais legítimo para a diversão do que todo o potencial criativo e exploratório de um sítio? Será que estamos perdendo o encantamento? Será que caminhamos para a artificialidade até nos ambientes naturais?
No caminho de volta para casa, na medida que fomos nos aproximando do nosso “belo horizonte”, mais uma triste constatação: nossas montanhas estão cada dia mais concreto. Que triste paisagem essa a de tantas casas avançando montanha a fora… Me sinto perdida em meu caminho de volta à selva de pedra, contemplando uma estranha paisagem que não mais reconheço.