Aconteceu! Já está acontecendo! Eu já posso sair por aí brindando e contando vitória porque isso que nós estamos fazendo – seja individualmente em nossas casas ou na praça pública que é a internet – está dando certo!
A Cecília, 7 anos de idade, sabe que as meninas podem tudo – e sabe porque a mãe dela fez questão de dizer, e dizer muitas vezes, mesmo ciente que, fatalmente, muitas pessoas diriam o contrário. Há alguns dias, Cecília deixou suas convicções bem claras a um menino da mesma idade que a repreendeu enquanto ela treinava, dizendo “menina não sabe andar de skate, você só cai”. “Meninas podem tudo, e eu estou aprendendo”, foi o que ela respondeu, sem tirar o pé da prancha.
 Quando eu decidi, seis anos atrás, dizer repetidas vezes aos meus filhos, ambos meninos, que não existe diferença entre brinquedos de meninos e meninas, nem entre habilidades de meninos e meninas, nem entre talentos de meninos e meninas, era essa a minha esperança: que a gente conseguisse formar e empoderar uma geração capaz de dizer isso por conta própria, e capaz de, aos poucos, colocar as coisas em seu devido lugar, a despeito inclusive do monte de adultos que seguirá resistindo. Já vi os frutos da minha investida mil vezes, e cada uma delas, por mais delicada que tenha sido, só reforça a minha disposição – em nome da minha família e de todos os meninos e meninas que cruzarão o caminho deles.
Mas não preciso mais dizer do tamanho da resistência, porque todo o sistema colabora pra manter as coisas onde estão. E ainda temos muito a caminhar, eu sei bem. Não faz muito tempo, fomos brincar na casa de uma amiga minha, mãe de uma menina, e todos embarcaram numa deliciosa e saudável brincadeira de casinha. Meu menino trocou fralda, deu comidinhas, foi um pai feliz da vida. Só que, mesmo ouvindo desde o berço que ele pode brincar do que quiser, resistiu à minha oferta de comprar uma boneca, “porque se eu tiver uma boneca em casa, mãe, vou ter que dizer pros meus amigos que não tenho”.
Isso significa que ainda preciso dizer mais vezes, dizer bem de perto, pra ver se ele se sente disposto a encarar a resistência, e certamente é o que vou fazer. E significa também que ele está precisando ir brincar com a Cecília, a menina que sabe das coisas…