Estamos mudando o mundo. Basicamente, é essa minha ideia principal quando penso na educação das meninas. Penso que precisamos mudar, porque do jeito que está não tá legal! É mau humor pra ser atendido, é olhar torto pra dar a vez para um senhor na fila preferencial, é uma correria no trânsito, uma dificuldade de se alimentar direito e uma tristeza na maior parte das pessoas com as quais eu convivo na segunda-feira de manhã porque o fim de semana passou.

Precisamos repensar os padrões de criação. Precisamos acordar dessa hibernação do “fizeram comigo e não morri”, “sou uma pessoa ótima e cresci apanhando”. Precisamos parar e escutar o que o nosso coração fala quando lembramos desse momento da nossa infância: foi legal mesmo passar por todas essas violências? Ou você é uma pessoa ótima agora por todas as outras coisas maravilhosas que seus pais e cuidadores fizeram com você ALÉM dessa parte de te bater?  Ou de gritar? Ou de deixar de castigo sem muitas explicações. Porque, sinceramente, isso não edifica ninguém!

Quando ajo respirando e abaixando, perguntando se Liz quer um abraço depois de uma birra homérica no supermercado enquanto minha vontade é pegá-la pelo braço, eu me transformo em alguém maior. Mais dona de mim fazendo o que eu me propus a  fazer e não do que eu fiz por impulso sem querer. De quebra, ainda ensino pra ela algo muito valioso: eu também respiro quando estou com raiva. Eu também, assim como ela, tenho a oportunidade de decidir COMO agir ao invés de agir por impulso. E todos nós sabemos como fazer o que pregamos, tem muito mais impacto do que só discursar sobre como Liz deve ser com ela, comigo e com os seus amigos.

Revoluções levam tempo. Revoluções nos fazem sair da inércia, logo gera trabalho. Trabalho árduo, viu?! Trabalho para explicar suas escolhas para aquela tia que acha frescura não bater na menina, trabalho para escolher uma instituição que tem os valores parecidos com os seus, trabalho para escolher o caminho das pedras de escutar e argumentar sempre com sua filha de dois anos ao invés de usar o caminho mais simples e confortável do “ porque sou sua mãe”.

Temos vitórias nesse caminho que nos fazem respirar e ver que estamos na direção correta: uma menininha que consegue, mesmo querendo meu colo, falar para eu pegar a irmã que chora, que pergunta se está tudo bem com as bonecas depois que elas caem no chão e que conta o que sente “ eu tenho medo do lobo” , “ eu fico feliz quando você brinca comigo”. Quando somos empáticos de forma consistente, a empatia dela surge de maneira natural. É lindo acompanhar e ser parte de todo esse processo.

Uma revolução no mundo ocorrerá quando um grande número de pessoas decidir criar os filhos com amor  diariamente, e não só na legenda da foto, sabe? Em entender que aquele choro tem um sentimento por trás e acolher. Em respeitar o momento de brincar, em dar opções para que a criança possa exercer o direito de escolha, em ser flexível em situações que podemos ser como a hora do banho, a escolha limitada do cardápio do almoço. Deixar o celular pra lá e sair pro parque pra brincar do que as crianças querem brincar e de contar histórias sobre como foi a sua infância e sua vida.  Entendendo que quanto mais conversamos com a criança mais ela é naturalmente ensinada sem precisarmos daquele sermão que sabemos bem como é.

Imagina o impacto que essas atitudes terão na visão de mundo dos nossos filhos: olhar para a criança, fazer um esforço para compreender sua visão e seu sentimento por trás daquele comportamento além de ensinar  da melhor maneira sobre o amor e respeito, colocando-os em prática dentro da própria casa .

Começaremos a revolução nas nossas casas. Estenderemos para as pessoas que nos conhecem contando sobre elas. Convocaremos muitas famílias nas redes a participarem dessa corrente de amor e transformação e, de família em família, a mudança ocorrerá no seu bairro, na sua cidade, no seu estado, no seu país.  Vamos juntos mudar o mundo?