Aqui onde eu moro, não tem parque por perto. A pracinha mais próxima está há uns dez quarteirões. A rua é movimentada, não dá pra jogar bola e nem soltar pipa. Eu moro na cidade grande e, como muitas pessoas por aqui, vivo num apartamento, longe de qualquer espaço com vegetação mais abundante.

De uns tempos pra cá, no entanto, decidi olhar com mais calma para o cenário que anda rodeando a minha família. Pequenas doses diárias de caminhadas matinais serviram para mostrar uma natureza que, a princípio tão distante, na verdade está bem mais próxima do que eu imaginava.

Não foi muito difícil encontrá-la e tive a companhia de dois pequenos que me abriram os olhos, iniciando essa contemplação do que é natural, mesmo dentro de uma grande cidade.

A árvore na porta de casa, por exemplo, possui uma família de formigas passeadeiras que está sempre em fila, não se sabe bem para onde. No prédio ao lado, um jardim florido desperta a curiosidade para saber o nome de cada espécie. Mais alguns metros, e sementes redondinhas são coletadas cuidadosamente pelos pequenos exploradores – são as moedas da natureza.

Há também um girassol despontando na casa do outro lado da rua e, ao final do quarteirão, uma árvore que produz vagens secas deliciosas de se pisar, despertando uma experiência sensorial que toda criança aprecia.

Às vezes, vamos seguindo para o quarteirão de baixo, em outros dias, para o de cima. Mas em geral, paramos em algum ponto e exploramos durante toda a manhã aquele pequeno espaço, que, antes apenas passagem, agora passa a carregar uma história.

Sabe-se que o contato com a natureza traz inúmeros benefícios e, recentemente, tem-se descoberto, cada dia de forma mais evidente, a importância do brincar livre lá fora. Essa atividade, que parece tão difícil de ser praticada entre aqueles que moram nas grandes cidades, inspira a criatividade da criança, desenvolve habilidades motoras, sociais, auxilia a ter resiliência, além de aliviar o estresse, relaxar e mandar pra longe a depressão.

Infância não combina com confinamento. É necessário desemparedar as crianças para que possam libertar a imaginação. Mesmo nas grandes cidades, isso é possível, e não precisa muito. O olhar delas nos direciona: são pequenos insetos, diferentes plantas. Algumas pedras, sementes diversas e logo iniciam, até mesmo, pequenas coleções.

O maior desafio, na verdade, está com a gente: tomar a decisão de desligar as telas digitais – tanto as das crianças, quanto as nossas – e levar todos para fora de casa depende de uma atitude firme e confiante dos pais. 

Mas é um caminho que vale a pena. E, para completar a imersão na natureza dentro da cidade, inúmeros parques e praças esperam aquela visita nos finais de semana, deixando essa história ainda mais longa e inesquecível na vida dos pequenos.

As fotos que ilustram o post são registros que fizemos dos passeios realizados pelas nossas famílias: