Foto: Patrícia de Sá

 

Vamos falar sobre brincar? Como tem sido sua experiência em deixar suas crianças brincarem? Digo brincar sem direcionamento, sem se preocupar em ensinar alguma coisa ou inserir algo pedagógico. Como tem sido a experiência na casa de vocês?

Sabemos que o cérebro da criança se desenvolve muito rápido e é cheio de potencial. Com isso, ao mesmo tempo que passamos a valorizar os estímulos recebidos pelas crianças no início da vida, também passamos a crer que sejam super-estimulados.

Por isso, muitas das brincadeiras se tornaram super-estimulações: alguma habilidade deve ser aprendida ou deve haver um objetivo pedagógico. Só que tudo isso já está muito inserido no brincar, porque o brincar por si já é uma grande ferramenta de experiência e aprendizado.

Durante a brincadeira, a criança está aproveitando e aprendendo sobre si mesma, o mundo e a realidade interna e externa. Por isso é tão difícil tirarmos a criança da experiência de brincar para fazer alguma tarefa de casa, porque, no fundo, ela sabe o quanto é importante brincar, o quanto aquele momento é a chance de aprender tudo que ela é capaz de aprender.

Alguns autores não concordam com essa expressão “brincar livre”, pois acredita-se que, se é brincar, é livre. Mas o que vemos, na prática, não é bem isso. Normalmente interferimos, mandamos a criança fazer outra coisa, queremos ensinar como se faz e, poucas vezes, simplesmente deixamos a criança sentir e vivenciar esse ócio, vivenciar a experiência do jeito dela sem corrigir.

Isso está cada vez ficando mais distante da nossa realidade, as crianças têm cada vez menos tempo livre, não sei se você sabe, mas as crianças, numa média, elas têm uma hora de contato com o ar livre, de brincar livre por dia, isso é menos tempo de que as pessoas que estão numa cadeia tem de tempo ao ar livre.

As crianças estão muito presas num brincar sempre direcionado a uma quantidade enorme de atividades, rotinas e aulas (esportes e línguas estrangeiras, por exemplo), em uma necessidade de fazer alguma coisa para aprender outra.

Não que essas coisas não sejam importantes e válidas, mas, às vezes, existe uma sobrecarga desse tipo de atividade, e quando você pergunta para a criança se ela tem algum tempo livre, se brinca sozinha, com seus irmãos ou amigos, ela responde que não tem mais esse tempo — de brincar livre e estar ao ar livre.

Então, que possamos refletir sobre a rotina das nossas crianças, as oportunidades oferecidas para elas para que possam vivenciar o brincar. Quando a gente vivencia o brincar, somos capazes de, por meio dele, criar e recriar o tempo inteiro, desenvolver resiliência, resolução de problema, se conhecer, conhecer novas emoções, conhecer as emoções do mundo.

Sendo assim, não existe melhor escola do que o próprio brincar. Sem contar que, nas escolas as crianças têm tido menos oportunidade de brincar. O lugar onde deveriam ir para brincar está sendo somente para estudar, estudar e estudar.

As crianças sentem isso — o corpo delas também —, mas muitas vezes não conseguem dizer por palavras, apenas por comportamento, como um mal estar físico, por se sentirem presas nesse ambiente.

Temos a tendência a nos preocuparmos apenas com o futuro delas, como vestibular e carreira, sem lembrar que o momento que elas estão vivendo agora é essencial e passa, não volta mais.

Fiquemos mais cuidadosos e atentos a todo momento para permitir que as crianças sejam crianças e que possam viver a brincadeira, tão importante no agora. Vamos refletir juntos sobre isso?