Foto: Tanto Mar Fotografia

Saí do trabalho nesta última sexta-feira levando comigo, insistentemente, uma frase que ouvi de uma professora, doutora em educação, em uma entrevista sobre o brincar: “a gente desrespeita demais”. Desrespeita? A gente, de um modo geral, desconhece e desrespeita o processo do brincar e, claro, desrespeita também a criança, ela me dizia, se referindo às nossas formas de desvalorizar e, principalmente, limitar a brincadeira a um determinado tempo e espaço. A sugestão dela é para que a gente “entre no jogo”, o que não só potencializa nossa ligação com a criança como também nos dá a chance de trazer esses limites, quando necessários, de forma mais lúdica e respeitosa. É bem verdade que isso nem sempre é uma escolha, mas, no caminho de casa, fui pensando em quantas vezes nesta vida curta do meu menino eu ouvi: “Mas, mãe, eu nem brinquei!”. Ele diz isso quase sempre que chega a hora de fazer outra coisa – como comer, dormir, tomar banho… Na maioria das vezes, brincou sim, e bastante, sob meu ponto de vista, mas ele quer mais. É da natureza dele, como se fosse até a mais importante de todas as coisas… E talvez seja.

Não precisa ir longe. Quase sempre, o que agrada mais são os poucos metros quadrados de chão livre que ele tem na sala, onde cria histórias, faz corrida de carrinho e fala baixinho, numa conversa que é só dele. No fim de semana, o bebê estava no seu cochilo matinal, e eu sentei no sofá, camarote para assistir a experiência de vida do menino. Ele estava distraído e continuou brincando no mesmo ritmo. A história era sobre heróis que cuidavam de um museu. Ele brincava de corpo inteiro, literalmente, completamente absorto pela fantasia e por todas as cenas que suas mãos e pernas, com a ajuda de meia duzia de bonecos e uma caixa de papelão, podiam criar. Aquilo durou uns 20 minutos – 20 minutos de conexões e descobertas que eu nunca serei capaz de medir – até que ele me olhou, baixou a cabeça, olhou de novo e perguntou com um sorriso leve: “quer brincar?”

Eu titubeei na resposta, tão envolvida que estava na minha observação, e ele emendou:

– Mãe, por que adulto não brinca?
– Brinca sim, ué…
– Não, brinca nada. Adulto trabalha toda hora. Eu tô falando brincar muito, assim, no chão… Por isso que eu não quero virar adulto.
– Mas você pode ser um adulto que brinca, amor. Eu não brinco com você?
– Adulto pode ter brinquedo?
– Pode.
– Por que não tem?
– Tem gente que…
– Mãe, você quer ter um brinquedo?
– Quero.
– Então, toma.