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A honestidade emocional, e não a perfeição, é o que os filhos de fato necessitam dos pais. A criança observa o tempo todo suas reações de raiva, alegria, frustração, contentamento e êxito, e como você as expressa diante dos outros. É preciso ser modelo de franqueza, fazendo as crianças entenderem que não há problema em sentir todas as emoções possíveis. Muitos pais e mães consideram mais fácil lidar com os filhos em momentos felizes, mas, quando se trata de emoções mais complexas, como raiva, agressividade e ansiedade, o desafio é muito maior e, como resultado, a criança aprende menos a respeito desses sentimentos, o que pode afetar sua capacidade futura de controlá-los. Reconhecer e aceitar desde cedo todas as emoções, inclusive as ruins, facilita a vida”.

Esse é um trechinho do livro “As crianças dinamarquesas”, e eu o achei perfeito para nossa conversa de hoje. Como é difícil sermos honestos emocionalmente com a gente mesmo! Como esse trecho do livro fala, consideramos mais fácil lidar com as emoções felizes, e quando entram as emoções mais complexas, temos dificuldade, por isso, a nossa primeira reação com a criança costuma ser buscar eliminar essa emoção.

Costumamos dizer para a criança “parar”, que ela não precisa sentir aquilo, que não tem necessidade, que não foi tão importante assim, que não é tão grave assim. Dessa forma, não somos honestos emocionalmente nem com a gente mesmo nem com a criança.

Honestidade emocional: como lidar com os sentimentos

As crianças não precisam de perfeição, mas de honestidade emocional. Honestidade emocional é se conhecer e saber quais são as emoções mais difíceis de lidar. É pensar: “o que é mais difícil para mim? É quando meu filho está com raiva? É quando meu filho está agressivo? É quando meu filho está ansioso? Qual é a emoção do meu filho que é mais difícil para eu lidar?”.

Quando eu identificar essas emoções mais difíceis de lidar relacionadas a ele, identificarei, também em mim, todas elas em relação a mim mesma, porque se eu tenho dificuldade de lidar com a ansiedade do meu filho, provavelmente tenho dificuldade de lidar com a minha própria ansiedade.

Essa consciência não é algo que a gente adquire da noite para o dia, e não é algo que é para a gente adquirir como culpa, de maneira alguma. Como eu sempre falo, a culpa não nos leva a lugar nenhum, não é mesmo?!

Mas é como a título de consciência mesmo, de abertura emocional de sermos honestos com a gente mesmo. Quando não abrimos espaço para as emoções mais complexas, as chamadas “negativas”, acontece o que o livro fala: como resultado, a criança aprende menos a respeito desses sentimentos, e uma das habilidades mais importantes da nossa vida é conhecer as nossas emoções e usar esse conhecimento para ter autodisciplina e autocontrole.

Como eu vou aprender a ter autocontrole abafando as minhas emoções? Eu vou virar uma bomba-relógio, uma hora eu vou explodir. Então, precisamos trabalhar em nós antes de chegar a validar os sentimentos da criança.

Antes de acolher os sentimentos da criança, devemos acolher esses sentimentos em nós, por isso, vale essa pergunta: “quais são os sentimentos que me incomodam?”

Autocontrole e autoconhecimento: por onde começar?

Posso começar olhando para a minha relação com a criança e, depois, para a minha relação comigo mesmo, porque estamos na mesma caixa d’água — os adultos e as crianças.

Vivemos espelhamentos, reverberamos o sentimento do outro. Precisamos lembrar como fomos tratados em relação às nossas emoções. Quando eu sentia raiva quando eu era criança, como eu era tratado? Como lidavam com a minha raiva? Quando eu ficava ansioso, quando ficava nervoso, como me tratavam?

Seu olhar para isso ficará muito mais fácil, pois você mergulhará num espaço de consciência de honestidade emocional, que facilita o relacionamento com a criança. Quando a gente fala de honestidade emocional é importante dizer que a gente pode assumir para a criança os nossos sentimentos.

A criança entende tudo

Quantas vezes a gente resume os nossos sentimentos para criança entre feliz e triste? Colocamos uma responsabilidade, um peso muito grande na criança pela nossa felicidade ou pela nossa tristeza, não sendo honestos com ela. Não costumamos falar: “olha, hoje eu estou chateado, hoje eu fiquei com raiva, hoje eu fiquei frustrado”.

Não acreditamos na capacidade da criança de entender esses sentimentos. Sei que pode estar passando na sua cabeça: “ah, mas será que uma criança pequena, menor de 2 anos, é capaz de entender isso?”. Bem, as crianças são capazes de entender tudo. Claro que ainda estão aprendendo sobre esses sentimentos, e a maneira de se expressarem vai ser diferente de acordo com a idade, mas elas são muito inteligentes.

Crianças não precisam de perfeição, mas da nossa honestidade emocional, elas precisam que busquemos nos conhecer para lidar com elas. Não adianta saber um monte de ferramentas, técnicas ou o que falar. Não adianta querer uma resposta pronta se a gente não souber lidar com as nossas emoções, se a gente não se conhecer, se não formos honestos com a gente e com a criança.

Então, vamos pensar sobre isso, mais uma vez sem o lugar da culpa, tá bom?!