Por Rosane Castilhos, mãe, artista plástica, educadora parental (PDA).

A infância tem encurtado. 
As crianças vivem dias de não-descanso, não-ócio, não-tédio, no entanto descanso, ócio e tédio também nos constroem, e como. A gente se estrutura no espaço vazio, de respiro, tanto quanto estudar, trabalhar ou fazer uma atividade. A infância tem sido destinada a uma alta taxa de ocupação, a infância tem sido sujeita a tantos ou mais compromissos que a fase adulta.Sempre lutei contra isso e agora, ao criar meus filhos, mais ainda.

Nestes tempos de infância-esgrima-patins-futebol-inglês -russo-ballet-robótica e mil outras funções, não sobra tempo para o descanso, e nem para o silêncio, aquele fundamental quando olhamos para dentro da gente mesmo e enxergamos a nossa FLORESTA, é assim que chamamos por aqui, nossa interior e essência: floresta interna. Ela é carregada de mudas, flores, árvores, caules, frutos que precisam de tempo para florescer e SER. Olhar pra essa nossa floresta interna exige tempo e esse tempo exige ócio. Só assim é possível enxergar as diferentes nuances, os movimentos, a secura ou a umidade interna que somos.

Essa vida toda tem se dissipado em compromissos, se dispersado em tempos de correria para cumprir os feitos ditos pela sociedade como fundamentais para o desenvolvimento infantil. Em parte concordo, meus filhos fazem algumas atividades, mas poucas, é o tal do empouquecer, penso que eles terão tempo para os compromissos a vida toda que se segue, mas a infância só acontece AGORA.

A infância tem se comportado num “moving in a herd”, ou seja: num movimento em rebanho, onde na espera pra pegar o filho na escola, um pai conta para o outro que seu filho tem feito judô e isso tem sido algo maravilhoso, o pai ouvinte trata logo de matricular o seu filho no mesmo esporte como garantia de “maravilhosidade” (conjunção de maravilhoso com grandioso) e assim segue a infância como um rebanho onde as etiquetas são presas em sua carne como crédito de valor, boa carne, produtiva e garantida de um futuro promissor.E quando se anda em bando, nesse sentido que descrevo, como uma imposição, não acontece legitimamente a apropriação da aprendizagem.

Aprender algo é antes de tudo  uma DECISÃO INDIVIDUAL, e se a criança não tem ainda a capacidade de fazer isso meus caros, ela não tem a obrigação de fazer. Claro e lógico que os adultos de referência têm esse papel de orientador, mas temos levado essa palavra a risca e temos ORIENTADO A DOR.

Esse tema é de extrema importância num mundo onde o suicídio tem disparado e iniciado aos dez anos, em um mundo onde as crianças estão estressadas, ansiosas e cansadas. Por tudo isso eu e a Flávia do @napracinha lançamos o manifesto #descansacriança ♥︎

Gente, a infância não precisa de especializações, ela precisa acontecer no seu tempo, com intervalos entre atividades e ócio, talvez mais ócio. O ócio é extremamente edificante, ele pode ser só não fazer nada, mas pode se “fazer” tanto nesse nada.
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