Foto: Patrícia de Sá

Por Rosane Castilhos, mãe, artista plástica, educadora parental (PDA).

Lembro de um dia que estávamos na praia e havia um grupo de crianças em “colônia de férias”. As palavras de ordem vinham dos instrutores: “em fila, pra areia, hora de fazer castelos.” “todos pra água, mergulhem, hora de mergulhar.” Mais tarde: “hora de se esticar, vamos: pra direita, pra esquerda, respira.” Ouvi RESPIRA? Como? As crianças eram orientadas o tempo todo.

Fiquei pensando naquele mergulho que a gente dá quando têm vontade de se entregar ao mar, a(mar), naquele mergulho movido pelo desejo de se afundar na água como se fosse ela nossa morada e refúgio, naquele mergulho que a gente lava a alma e volta a superfície renovado, e as vezes, só a procura de um respiro pra de novo emergir. Escrevendo lembrei do mergulho como batismo (sem ligação com o religioso) mas do batismo na água como entrega. Nossa, que exagero meu, se tratava só de um mergulho padrão. É exatamente nisso que me detenho: no padrão. Pode ser muito bom esse mergulho coletivo, mas e se a gente usasse: alguém quer mergulhar agora? Juntos? Sozinhos? Fiquei pensando como seria um mergulho conduzido por um orientador (me refiro a esse momento de férias, que devia ser de descanso e de fazer tudo com vontade, desejo, sem pressa e sem muitas regras). Talvez eu criança obedecesse, já eu adulta não, e como mãe diria aos meus filhos: mergulhem se quiserem, respeitem quem lhes guia, mas só mergulhem se desejarem. 

A criança é apta em se encaixar nos padrões, se encaixa porque os adultos que ama lhe dizem que é bom, se encaixa porque  todos os outros estão lá encaixados, encaixotados (em-caixas). E lá vão elas em rebanhos, uniformizadas conforme ditam as regras do sucesso futuro. E nós lá sabemos o que o futuro exigirá das crianças? O mundo é variável, evolutivo e descontínuo. Talvez elas precisarão ter aulas de como descansar, como viver o ócio e o tédio de forma feliz. O entrar e sair do mar era sincronizado, tão em bando que até se confundia a infância enfileirada com um daqueles grupos de soldados em treinamento.

E eu que já sou dada ao devaneio lhes digo: eles nem molhados pareciam estar. Aos meus olhos continuavam secos. Aquilo não me parecia férias e se elas deixassem de existir como se algo desengrenasse em não-férias, não-passagem desse tempo, não-contagem desses dias, era como se estivessem ainda sob as regras de crianças sem férias. E se o tempo não passa, a vida não acontece, nem se quer comemoramos aniversários, seria uma vida de não-aniversários. Lembro que todos gritavam palavras de estímulo num uníssono maravilhoso. Isso de novo me remetia a um batalhão militar. Não havia espaço para uma tomada de decisão consciente e singular, o padrão era o rei, a rainha, os príncipes, as princesas, o bobo da corte e o povo. O padrão era o reinado todo. 

Enquanto isso, meus filhos e o marido brincavam com outras crianças que haviam feito uma piscina natural (um buraco na areia). Eles nem percebiam aqueles movimentos coesos, padrões para os quais eu não conseguia parar de olhar. Aquelas crianças pareciam exaustas, mas seguiam. Haviam bandeirinhas espalhadas, elas formavam um quadrado limitador, era ali que as não-férias aconteciam, era ali que o excesso de atividades orientadas se dava. 

Meu texto não tem um caráter de julgamento aos pais que destinam seus filhos para essas colônias, cada um sabe de si, e cada colônia é única (não escrevo isso com convicção, justamente por não conhecer nenhuma). Meu texto se refere ao exagero de atividades propostas em duas horinhas de praia, meus escritos dizem respeito ao padrão não-férias que presenciei, meu texto fala dessa INFÂNCIA ENFILEIRADA. Por tudo isso eu e a Flávia do @napracinha lançamos o manifesto #descansacriança ♥︎

Areia de praia parece mesmo ser um lugar perfeito pra se esticar e nada fazer, assim como a grama, a terra, a cama, a rede, o sofá, o chão gelado numa tarde de verão. É saudável não fazer nada, as vezes, muitas vezes.