Foto: Patrícia de Sá

Por Rosane Castilhos, mãe, artista plástica, educadora parental (PDA).

Descansa criança.
Esse excesso de ocupação da infância diz muito sobre nosso conceito de tempo útil, damos as crianças tantos afazeres porque entendemos que tempo útil é tempo ocupado por tarefas. Mostramos isso aos nossos filhos quando nos sentimos muito mais úteis trabalhando, somos culturalmente valorizados pelo trabalho que desempenhamos, somos melhor conceituados se temos um emprego fixo de oito a doze horas por dia, a sociedade aplaude quem trabalha três turnos (não escrevo sobre a necessidade do trabalho em relação ao sustento, isso tem inúmeras vertentes políticas, sociais, econômicas, como também tem o aspecto de que somos seres consumidores e cada vez desejamos ter mais, só estou me referindo ao desvalor que damos ao “não fazer nada”).

Acreditamos que tempo útil acontece somente na aprendizagem de conteúdos como línguas, robótica, ballet, etc. Sempre penso que o tempo mais lindo e útil que podemos dar a criança é O TEMPO PARA PENSAR. Temos tempo para pensar? Temos tempo para refletir antes de tomar uma decisão? Temos tempo para decidir algo de forma consciente nessa pressa que o mundo tem exigido? E a escola tem aberto esse espaço do pensar? E nós adultos temos dado esse tempo para as crianças?

Num mundo volátil ter tempo para pensar, refletir, assentar as coisas e os sentimentos, para só depois dizer sim ou não é ouro. O tempo de pensar nos ensina a dizer sim de forma mais consciente e também nos ensina a dizer não, e por vezes, saber dizer não é mais importante do que dizer sim. Dizer não é quase sempre associado a negação de algo, mas saber dizer não muitas vezes é sobre AFIRMAÇÃO, a favor de nós, a favor das nossas emoções, a favor daquilo que acreditamos. Dizer não é diferente de ser contra algo, tem mais a ver com dizer sim ao que nos faz sentido ao coração, as vísceras, a alma, ao corpo, e a criança tem sim o direito de dizer não, nosso papel é de ajudá-la em suas decisões, mas não de impor, ainda mais quando essa imposição vem carregada de padrões sociais seguido como um modelo de educar que não nos cabem.

Lembram do mergulho? Ele não precisa ser coletivo. Não existe só um leito para os rios que correm. Imagina uma criança ter tempo de refletir sobre suas escolhas, penso que isso a ajudaria no caminho da assertividade e para fazer isso ela precisa ter um certo amadurecimento.

Crianças de três, quatro, cinco, seis anos não decidiram de forma consciente fazer inglês, francês e tantas outras atividades que andam a fazer. Nessas idades elas precisam desenvolver habilidades humanas mais do qualquer outra coisa, fazer conquistas emocionais que se fazem num tempo de face to face, cara a cara, num tempo de ócio, de respiro e de vazio.

Tempo útil não deveria estar tão intimamente ligado a produção. Tempo útil pode ser ócio e tédio e até o caos, não estamos falando sobre isso mas vale dizer: no ócio, no vazio e no caos desenvolvemos a criatividade de forma verdadeira e legítima. Por tudo isso eu e a Flávia do @napracinha lançamos o manifesto #descansacriança ♥︎

Lembram do mergulho? Ele não precisa ser coletivo. Não existe só um leito para os rios que correm.É conforme. É descontínuo. É variável. É evolutivo.A vida é gigante e carregada de descobertas e nem sempre elas se dão nesse conceito que temos de tempo útil.A curiosidade geralmente acontece no freio das coisas, quando paramos e colocamos reparo na vida. Adoro a música da Nina Simone que nos “manda” parar: brake down and let it all out…
#descansacriança