Foto: Tanto Mar Fotografia

Esta foto foi tirada em um dos nossos piqueniques. Naqueles dias desafiadores e imprevisíveis. Olivia estava muito sensível e era uma manhã de trabalho, que envolve produção e coordenação, pré, durante e pós evento. Sei do privilégio que tenho em poder trabalhar com algo que amo e estar junto das minhas filhas. Mas, ao mesmo tempo, a dona culpa bate aqui dentro, pois nem sempre posso ser 100% atenção. As vezes vejo que elas repetem minhas falas durante as brincadeiras “agora não posso”, “espera 10 minutinhos pra eu terminar aquilo”. Sempre receio de que esta “falta” rompa nossa conexão. 
Não existe maternidade perfeita. Não pense que os 15 segundos do stories ou a foto fofa do feed resume o cotidiano de alguém. As relações são falhas. Somos humanos. Estamos em busca do melhor para os nossos filhos, e isso é um conceito relativo. Cada um sabe de si, buscamos o que é melhor pra gente, dentro do que nos cabe (ou deveríamos pensar assim). Então, tenho conversado muito sobre a importância do trabalho, de fazermos o que gostamos, das coisas boas e ruins que são consequências dessa responsabilidade, e, principalmente, sobre os percalços que a gente enfrenta. Sigo tentando…
Maternar é se permitir errar, acertar, construir e reconstruir o caminho. E buscar a nossa validação interna. São muitos aprendizados ao longo dessa trajetória. E você, como faz? 
Compartilho com vocês o relato de uma mulher inspiradora, a Mariana Rosa:
“O convite era para falar sobre culpa para mulheres, mães. E meu primeiro pensamento foi: eu? Mas não estudo, nem pesquiso o tema… eu? Eu que senti culpa quando minha filha nasceu prematura. Que senti culpa por não poder amamentá-la. Que senti culpa por cada dia que ela passou na UTI Neonatal, e por centenas de outros que vieram depois, já fora de perigo. Senti culpa pelo seu diagnóstico, e o sentimento foi endossado algumas vezes, quando me perguntaram: o que você fez para merecer uma filha deficiente? Senti culpa quando esqueci de dar o remédio, de buscar na escola. Senti culpa quando dormi exausta e não consegui perceber que ela precisava de ajuda no meio da noite. Eu que senti culpa quando voltei ao trabalho, ela ainda tão pequenina e frágil, e depois senti de novo por ter saído do trabalho, despesas e responsabilidades se acumulando. Senti culpa aquela vez que ela ficou gripada durante a viagem e também quando ela caiu da cadeira de rodas. Senti culpa por não querer ficar todo o tempo com ela, por necessitar de pausa, de tempo longe, de respiro. Sim, eu! É justo que estejamos eu e ela – a culpa – juntas nessa conversa. Afinal, é assim que tem sido os últimos seis anos.
A culpa é aquela visita espaçosa a quem, durante muito tempo, ofereci casa, comida e roupa lavada. Ela foi ficando à vontade, preenchendo todos os buracos, manchando as escolhas, tomando posse. Chantagista, tentou me fazer crer que se eu assumisse os comportamentos convencionados ou convenientes, muitos deles ditados por uma cultura machista, ela iria embora. Fiz algumas tentativas até perceber que ela subia a aposta a cada vez. Fui cabendo cada vez menos em mim, me mudando para a casa que a culpa dizia ser ideal enquanto ela tomava meu corpo, minhas dores, meus sonhos. Tentei ação de despejo. Radical e certeira. Mas ela voltou no dia seguinte, encontrou a porta aberta.
Pois bem, se ela é insistente e conta com coro de apoio, eu sou mulher, desdobrável, como diz Adélia Prado. Minha especialidade é me refazer. Se ela quer chegar, que entre. Mas não terá mais vida fácil. No máximo um banquinho de canto: sei que está ali, mas não facilito. Abro as janelas para tudo o que é humano em mim reaver espaços, lugares e possibilidades. Deixo que as idealizações repousem feito poeira velha, porque a mim interessam os sonhos reais e possíveis, aqueles que só fazem sentido na minha vida. Miro a culpa ali, à espreita, mas por aqui vou me resolvendo com as responsabilidades. Aliás, aprendi a distribuí-las de maneira mais equilibrada. Existo, resisto, insisto: trago de volta as minhas escolhas. Minhas.
Agora já não me ressinto da culpa. Não é minha inimiga porque já não me limita, nem me paralisa. É um lembrete das pressões de fora a cada vez que o pulso dos meus quereres assume a direção de uma jornada autêntica. Ela ameaça, e eu sei que estou indo fundo, que bom. É feito aquele vento na cara: dificulta a respiração e exige habilidade extra, mas que prazer é ser protagonista da própria rota!
Um tanto dessas vivências e jeitos de entender a culpa é o que pretendo compartilhar na ‘Real e possível: jornada online por uma maternagem autêntica’, promovida pelo Entre Nós. Sem receitas ou teorias, com vivência e interesse de construir sentido junto. Vamos?”
Mariana Rosa – Diário da mãe da Alice 

Em setembro, começou a nova jornada online do Entre Nós sobre uma maternidade real, possível e autêntica, com 6 encontros ao vivo . O primeiro foi sobre culpa, com a Mariana Rosa, mas ainda é possível participar do percurso e receber as gravações dos encontros realizados, e estar presente nos que estão por vir. Saiba mais aqui. Você pode se inscrever para este encontro ou para a jornada completa. Vamos juntas? 

Te espero!