Foto: Viviane Lacerda

 

 

Eu estava dando aquela rodada quase viciada na minha timeline, sem qualquer foco, quando li um post de uma conhecida, cuja vida eu não acompanharia se não fossem as redes sociais, em que ela reproduzia uma frase curtinha do filho dela. O menino, de 8 anos, disse pra mãe que queria que a vida tivesse um botão para gente apertar e viver tudo o que já viveu de novo, porque está passando muito depressa. Um restart. Sorri primeiro, senti um aperto no peito em seguida. Apertei o dedo em comentar, rolei o cursor pra cima e pra baixo, mas fiquei dois minutos ali sem saber o que dizer, e fui respirar lá fora.

Que eu sinta isso tudo bem, mas um menino de 8 anos? É lindo perceber que ele gosta da vida que tem, quer viver mais, de novo, mas o que será que o levou a pensar nisso, quero dizer, por que ele acha que a vida está passando depressa se as nossas lembranças de infância quase sempre dão conta de um tempo que custava pra passar, de uma longa espera pra fazer isso ou aquilo, pra ser adulto ou, antes, pra fazer aniversário no ano seguinte? E não acho que a resposta esteja no que faz ou fez essa minha conhecida, mãe dele. Somos nós os responsáveis, todos nós. Naquele mesmo dia, poucas horas antes, eu tinha sentado com o meu menino mais velho, 6 anos, e feito com ele um “horário da semana”, pra ajudá-lo a lembrar (de me ajudar a cuidar) das coisas que ele precisa fazer de segunda a sexta e, embora ele estivesse sorrindo, fomos preenchendo os campos, quase todos, com caneta roxa. Aula, natação, futebol, inglês… “Mas é tudo lúdico, viu?”, eu fico repetindo aqui mentalmente pra me convencer. Sim, tudo lúdico, mas com hora marcada.
Sobraram alguns espaços em branco no nosso quadro, ainda bem, e ele se apressou em dizer que “nessa hora aqui, ó, eu vou brincar”. É comum ficarmos em casa de manhã, só eu e os meninos, e eles acordarem ansiosos pra mergulhar na brincadeira. Nem leite precisa, nem pãozinho, querem voltar correndo pro quarto, ou ir pro chão da sala. Às vezes, parece mais instintivo do que a fome, a sede… Eu gosto de propor coisas diferentes, vamos montar isso, vamos desenhar alguma coisa, vamos chamar o irmão pra brincar também! Funciona. Mas depois dessa história do botão para reiniciar, resolvi dar um passo pra trás e deixei que se arranjassem. O tempo é deles, ora, que escolham! Inventaram histórias, montaram e desmontaram bonecos. Brincaram juntos, quase sem conflito, por umas 3 horas inteiras. Depois o menino foi lá conferir o quadro de horários. Estava na hora de arrumar o material da escola.