Foto: Patrícia de Sá

Emprestei essa frase, título de um dos meus livros preferidos, de Marcelo Xavier, para iniciar minha reflexão deste texto. Como seriam mais fáceis as coisas se pudéssemos olhá-las com a simplicidade e a sensibilidade de uma criança. 

Estava em sala de aula e passei uma atividade para os alunos fazerem (turma de 7º ano). Peguei minha agenda para fazer umas anotações e, quando abri, meu cartão do banco “pulou” lá de dentro. Cartão que estava sumido há uns 3 dias. Já estava naquele nível de desespero, quase ligando pro banco pra cancelar. Meu alívio foi tão grande ao achá-lo que falei alto: “Nossa, ainda bem!”. 

Um aluno muito fofo que estava assentado na primeira carteira falou: “O que foi, professora?”. Respondi: “Já estava aflita com o sumiço do meu cartão do banco, mas acabei de encontrá-lo.” Ele, então, com a expressão mais singela: “Nossa, eu também fiquei desesperado quando perdi meu cartão do Parque Guanabara.” 

Fiquei olhando pra ele, incrédula. Não sabia se ria… como ele realmente achou que meu cartão do banco era igual ao cartão do parque?   Fui até a porta da sala para rir da situação, mas me dei conta de que eu que estava “errada” ao achar que a comparação dele foi absurda. Fiquei refletindo sobre a resposta dele o dia todo e concluí: nunca receberia de um adulto um comentário tão sereno e tão empático para um problema (aparentemente) tão grave. Pensei ainda na simplicidade quase ingênua do comentário e quis, realmente, que o mundo fosse governado por crianças. Como seria ótimo se meu maior problema fosse a perda do cartão do parque. Como as crianças conseguem enxergar os problemas enormes que os adultos carregam de uma forma mais simples e, muitas vezes, mais sensata. 

Que lição vou levar desse dia, como esse meu aluno me fez refletir sobre como a vida pode ser mais simples, sobre como até as dificuldades que enfrentamos podem ser relativas. 

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
Cora Coralina, Vintém de cobre: meias confissões de Aninha.