Tanto Mar Fotografia

Texto gentilmente cedido por Monica Calderano –  jornalista, mãe, (equilibrosa.com) – para o Na pracinha

As coisas já estavam complicadas o suficiente quando descobrimos o risco, e passamos então a ter que nos afastar também dentro de casa, uns dos outros, nós das crianças. Eu disse a verdade, porque não daria pra ser de outra forma, e então ficou combinado que a gente usaria máscaras, separaria os banheiros, toalhas, talheres – mantenha distância, faça sua refeição num cantinho. Mais do que isso não é possível. “Até quando, mãe?” Até a gente ter o resultado do teste, e aí a gente vai ver o que fazer.

As primeiras horas correram bem, e eu já tinha na cabeça que diminuiria as exigências, pode fazer o que te deixa mais confortável, vamos em frente porque a gente precisa passar por esses dias. Antes que 24 horas inteiras tivessem se completado, ele passou por mim feito um raio, seguiu pelo corredor, entrou no quarto, sentou e chorou. Disse que não aguenta mais, que está “muito difícil ser feliz”, e que não quer mais ver filme ou qualquer coisa de antes do vírus porque isso faz lembrar de como era, e aí dói mais ainda. “E eu nem posso te abraçar”, e foi nessa hora que chorei junto.

É inenarrável o que estamos suportando, o que estamos levando, o que estamos normalizando todos os dias. E eu, que venho me esticando e me contorcendo pra deixar as coisas um pouco mais leves há uns dez meses, não sei mais o que eu posso fazer… Talvez eu possa fazer massagem nos pés! Sentei na frente dele, pedi pra continuar falando porque ele estava triste, e fui apertando aleatoriamente o pé, porque não tenho técnica nenhuma. Queria abraçar todos os pedaços, queria poder jurar que não falta muito, queria poder garantir que vamos sair dessa firmes e fortes, mas nem disso eu posso ter tanta certeza.

Disse então que pode reclamar o quanto quiser, e que eu também vou reclamar um pouco mais, pra ver se a gente não deixa agarrar lá dentro essa dor toda. Mas também precisamos renovar outros combinados: nos ouvir, respirar bem fundo, nutrir a alma com boas histórias, beija o seu irmão, e vamos continuar tentando um pouco mais, todos os dias, um a um. ❤ Agora, dias depois, nos abraçamos firme, porque deu negativo, porque estamos resistindo, um dia por vez.