Criança brinca com um gravador musical dentro de casa
Tanto Mar Fotografia

Estamos em casa, um ambiente transmudado por nossos fazeres, percepções, relações. Confinadas, as crianças clamam por espaço, liberdade. Dúvidas sobre brincadeiras, busca por manuais de brincar, tem sido recorrentes desde que tudo isso começou.

Criança brinca a cada instante. Não precisamos ensiná-las. Temos que permitir o brincar livre dentro. Espontâneo, mas não de qualquer jeito, com intenção em proporcionar recursos potentes para o imaginário e construção de mundo dos pequenos. Para contribuir, devemos conceder tempo e espaço para que a criança experiencie a vida brincando. E disponibilizar elementos que expandirão sua capacidade criativa, inventiva, investigativa, exploradora.

O brincar é viés para escuta e conexão. E pode acontecer de forma orgânica no contexto da casa. Compartilho com vocês algumas sugestões:

〰️ Conceda liberdade e autonomia para que a criança seja protagonista de suas descobertas. Suas percepções são construídas a partir de como transitam pelo cotidiano, do sentido, da experiência, das hipóteses que surgem no brincar livre.

〰️ Permita que ocupe o espaço da casa, seja quarto, sala, varanda, corredor, quintal. A gente sabe que os combinados são essenciais para uma convivência respeitosa, devem ser acordados em conjuntos, mas é essencial que a criança entenda que é livre para brincar e reconhecida como sujeito pleno em sua casa.

〰️ Pense no repertório, a criança brinca com o corpo, com o movimento, com a curiosidade, com a experiência. Busque diversidade nos materiais ofertados – papéis, caixas de papelão, tesouros naturais, blocos, lápis, giz, livros (quanto mais “brinquedos não brinquedos” melhor). Considere a atratividade, sensoralidade, simplicidade, para aguçar a criatividade e o potencial imaginário.

〰️ Traga a natureza para dentro: plantem, façam experiências com vegetais, observem os insetos e animais. Recolham tesouros na calçada – folhas, flores, sementes, gravetos. Tudo pode se transformar pelo brincar.

〰️ Faça da janela o lá fora mais próximo. Olhem para o céu, botem reparo na paisagem, nas nuvens, nos pássaros. Sintam o movimento do dia, acompanhando sol, vento, chuva, noite, lua, estrelas.

〰️ Organize a rotina para que haja tempo junto – de qualidade com presença, atenção e afeto – e de ausência, para que você possa se dedicar aos fazeres (trabalho, demandas). Brincar junto é diálogo, vínculo. Aceite o convite, resgate a criança que mora dentro de ti, acesse o estado de encantamento. Nessa relação, a criança contará sobre sua percepção da realidade, suas emoções, seus sentimentos, e se você estiver atento e presente, será uma escuta afetuosa.

〰️ O ritmo do viver é também o do brincar. A criança necessita de momentos de expansão, de movimento, de liberdade, de uso da potência do corpo. E de contração, para aquietar, amansar com calma, tranquilidade, silêncio.

〰️ Não há necessidade de se buscar entretenimento o dia inteiro. Ócio, tédio, fazem parte da vida e são recursos para a criatividade e faz de conta. Ideias maravilhosas surgem do “fazer nada”.

Menina fantasiada pula de braços abertos na sala de casa
Tanto Mar Fotografia

“Os dias mais felizes da nossa infância são aqueles nos quais nossos pais (ou nossos avós, irmãos ou amigos) nos fizeram felizes. Mesmo quando parece que o que nos fez feliz foi um trem elétrico, se olhamos sempre há pessoas por trás: os pais que nos deram o presente com um sorriso ou com um elogio, o irmão com quem dividimos (nem sempre com boa vontade) o trem…
Éramos filhos e agora somos pais. Passaram tantos anos, mas tão pouco tempo que às vezes nos surpreendemos com a mudança de papéis. De repente vemos nossa própria infância e nossos próprios pais sob uma nova luz. Olhamos para nossos filhos e nos perguntamos que dia, que frase, que aventura ficarão gravados na sua memória para sempre. Que dores ficarão cravadas em sua alma e que alegrias guardarão como um tesouro. Os dias mais felizes do seu filho estão por vir. Dependem de você.”

Dr. Carlos González, em seu livro Bésame Mucho