Mãe e filho estão na cozinha, a criança está com a blusa levantada enquanto a mãe faz cosquinha em sua barriga.
Foto: Tanto Mar Fotografia

Muitos de nós têm vivido o mundo, as pessoas, a infância de nossos filhos em automático. A medida que vamos sempre acelerando, nossa relação temporal torna-se cada vez mais sobrecarregada e disfuncional. Roman Kznarick, filósofo, no seu livro “A arte de viver” afirma que a gente estrutura o conceito de tempo por metáforas, como mercadoria e posse (“tempo é dinheiro”, “poupar tempo”, “fazer o tempo render”), o que nos impede de entender que o tempo pode se tornar algo que nós mesmos fabricamos. Aponta também que a nossa sociedade vê tempo de sobra como negativo, depreciativo, evidência de fracasso. E conclui que parece ser difícil ir mais devagar, pois temos medo de que uma pausa prolongada nos dê tempo para perceber que nossas vidas não são tão significativas e satisfatórias como gostaríamos, e aí mergulhamos no desempenho, nas interrupções da vida digital.

Fato é que nos encontramos perdidos entre as tarefas de hoje, ontem e amanhã. Somos sequestrados por distrações e ruídos digitais. Esquecemos a contemplação, desaprendemos a vivenciar o ócio. Não ficamos em companhia de nossos pensamentos. Temos a sensação constante de falta.

Nossas crianças estão acompanhando toda essa correria. Muitas vezes, sem serem ouvidas. Conectadas em tablets e smartphones, bem mais do que deviam, e com um agenda cheia de atividades extracurriculares. Sempre recebendo a mensagem de que menos não é mais, de que é melhor fazer tudo mais depressa. E as crianças sentem. Tentamos responder às suas perguntas e às mensagens do celular ao mesmo tempo. Procuramos até mesmo sentar para brincar, sem deixar de lado o aparelho, de olho nas notificações. Os neurocientistas têm alertado: apesar de achar que conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo, na realidade, isso não existe. Podemos não perceber agora, mas a longo prazo, essa presença ausente grita de alguma forma – seja em comportamento, seja fisiologicamente. As mensagens instantâneas, não vão parar de apitar no celular. Já o olhar e as perguntas espontâneas dos pequenos, um dia não estarão mais ali. Sim, são anos que passam rápido.

Mãe e filho estão na cozinha preparando o almoço
Foto: Tanto Mar Fotografia

“Sempre que se fala da necessidade de desaceleração para as crianças, as brincadeiras são uma das principais preocupações. Muitos estudos demonstram que a disponibilidade de tempo não organizado para brincar ajuda as crianças menores e desenvolver sua capacitação social e de linguagem, a criatividade e a capacidade de aprender. As brincadeiras improvisadas são oposto do tempo que implica diligência, planejamento, horários e finalidade. Não estamos falando de aula de balé nem de jogo de futebol. A brincadeira espontânea se expressa em atividades como cavar a terra do jardim em busca de lesmas, fazer bagunça com os brinquedos no quarto, construir castelos de Lego, correr pra baixo pra cima com outras crianças no play ou simplesmente ficar olhando pela janela. É uma questão de explorar o mundo e a reação que você tem diante dele, no ritmo de cada um. Para um adulto acostumado ao aproveitamento neurótico de cada segundo, brincar improvisadamente parece uma perda de tempo. E nosso primeiro reflexo é encher os espaços vazios da agenda com atividades ‘prazerosas e enriquecedoras’.” Carl Honoré, no livro “Devagar”.

A pandemia nos ensina sobre reconhecer e privilegiar o essencial, tornando oportuno questionarmos como seguir. É possível ajustar alguns pontos para voltarmos a ser donos do nosso tempo, para fazer as coisas com calma, para ter mais prazer nelas (fundamento principal da filosofia slow) e estarmos mais próximos das crianças.

“Para livrar a próxima geração do culto da velocidade, será necessário reinventar toda nossa filosofia da infância, exatamente como fizeram os românticos dos séculos atrás. Mais liberdade e fluidez na educação, no prazer do aprendizado, mais espaço para as brincadeiras não organizadas, menos obsessão com aproveitamento de cada segundo, menos pressão para imitar os hábitos dos adultos.” aconselha Carl Honoré.

Para seguir refletindo:
Guia Detox Digital, da Contente
Carpie Diem, de Daniel Barros
TEDX de Carl Honoré sobre Lentidão
O Dilema das redes, e Quanto tempo o tempo tem?, disponíveis na Netflix

 〰️ este conteúdo faz parte da série sobre o brincar em tempos de isolamento 〰️