um menino deitado dentro de um caixote de madeira brinca com uma bola de luz
Foto: Tanto Mar Fotografia

A agenda está fixada na porta da geladeira: escola, idiomas, dança, música, reforço escolar, distribuídos por toda a semana. Os cuidadores se alternam no acompanhamento das crianças. Se antes da pandemia, o revezamento acontecia em trânsito, no contexto que vivemos hoje, essa rotina exaure online. Não é difícil encontrar famílias vivenciando esse cotidiano. Adultos ansiosos por resultados, receosos com que o que vai acontecer lá na frente, atormentados pela suposição de que os filhos possam “ficar para trás”. Crianças esgotadas pelo excesso de telas, pela ausência da convivência coletiva, cobradas por um aprendizado um tanto adiantado.

Só se é criança uma vez. Não podemos retirar o tempo de felicidade que é natural para elas como respiro: brincar livremente. Independente do contexto. “O brincar é o respiro da alma”, disse certa vez Lydia Hortelio.
A criança existe no que imagina. Montar cabaninhas, viver o faz de conta, se aventurar num perigoso mar de almofadas, subir em árvores, explorar o espaço, assim como todas as possibilidades criadas quando os pequenos ficam livres para criar, perdidos em fantasia.

Brincar livremente, sem regras impostas por adultos, explorando, usando o corpo, inventando, criando, relacionando-se com o mundo, com os outros, com o desconhecido. Um tempo de potência, em que se constrói autonomia e percorre caminhos criativos.

Te proponho uma pequena mudança. A partir de agora, que a agenda de sua criança seja assim: aula de subir em árvore, culinária com as folhas recolhidas pelo quarteirão, corrida de obstáculos no parquinho, sessão de observação do céu, aula de direção para carrinhos que enfrentam os obstáculos da escada de casa. E se sobrar tempo, que ela brinque – de novo. 


“Amar é brincar.
Não leva a nada.
Não é pra levar a nada.
Quem brinca já chegou.”

Rubem Alves

〰️ este conteúdo faz parte da série sobre o brincar em tempos de isolamento 〰️