Foto de dois meninos irmãos de pele clara, cabelos castanhos, deitados em uma cama. O mais velho com a cabeça abaixada, recostada no travesseiro, e o mais novo o abraçando.

Sabe individualidade? Não, não sabemos mais o que é isso, e não venha nos explicar. Onde há individualidade possível em um apartamento de portas fechadas, e tudo ali dentro: mãe, pai, irmão, escola de um, escola de outro, trabalho de um, trabalho do outro, o encontro com os amigos, o bate-papo, as novas ideias, as velhas ideias, os meus conflitos, os seus conflitos e aquele curso extra que a gente decidiu fazer? Eis a realidade: andam agora grudados.  

Quando dão um tempo (um do outro) é coisa de 10 minutos, 15 no máximo, e tudo se mistura de novo, o que sou eu, quem é você… o que nós queremos mesmo? De vez em quando ensaiam um respiro, um “eu quero ficar sozinho” que vem forte lá de dentro e atinge em cheio o coração do irmão, mas as emoções são muitas e em pouco tempo se misturam de novo. Às vezes são ambos muito crescidos, capazes de ler juntos coisas complexas, de prepararem sozinhos (ou quase) o café da manhã e dizerem coisas bonitas sobre família, o que já vivemos, o que ainda queremos viver. Outras vezes são dois meninos pequenos, uma bagunça sem fim, queixas sem fim, eu grito, tu gritas, ele grita…. crises existenciais típicas do maternal.  

Brigam um com o outro, e nos últimos meses eu diria que brigam diariamente, usam gritos, uns resmungos meia-boca, ironia, muita implicância, uns chutes, uns tapas, e quando você fica bravíssima e tristíssima, quando você elabora um discurso de cinco minutos sobre amor de irmão e gasta outros 15 pensando no que ainda falta fazer pra ensinar, veja bem, lá estão eles aos beijos e abraços e juras de amor, e só quem está chateada é você…  

Ontem logo cedo me perguntou o pequetito: “Sabe qual a coisa mais preciosa do mundo?” – contexto zero, chupando uma laranja em uma manhã de ar fresco, céu muito azul. “O quê?”, eu perguntei, sem fazer qualquer aposta, tudo pode ser. “O meu irmão”. Pausa pra eu relevar todo o estresse, toda a correria, toda a chateação, toda a preocupação. Licença pra eu fingir que jamais brigaram, que não se arranham, que não separo brigas. Meu coração derretido. “Por que ele é tão precioso?” “É que quando a gente brinca, toda parte de mim fica feliz.”